Olá a todos! Quarta-feira de carnaval, aquele dia meio morto, meio de trabalho com culpa… mas aqui é o nosso canto sem culpa! Aliás, outro dia alguém me perguntou se eu não me sentia culpada por incitar o consumo alcoólico nas pessoas.
Sinceramente, não. Quem lê e vê as postagens, tanto aqui quanto no Instagram, YouTube ou no meu blog, percebe que não é o álcool pelo álcool, mas sim informações sobre uma cultura do vinho e de bons vinhos, que são bebidos em pequena quantidade. Como diria o produtor de vinhos Philippe Pacalet: “não estamos aqui para encher a cara”.
Na minha opinião, principalmente para nós, brasileiros, e para países que se desenvolveram economicamente nas últimas décadas, o vinho (assim como a arte) é um símbolo de acesso à cultura e à informação, quase um hobby. Saber mais sobre vinhos é como estudar uma outra língua estrangeira quando você já estudou inglês e espanhol, ou seja, você estuda por prazer e cultura. Então vamos deixar a culpa de lado e bater papo sobre vinhos.
📚Glossário – um segredo que você não sabe.
Na última edição do nosso Café & Borgonha, eu escrevi um glossário com algumas palavras dos vinhos da Borgonha. Essas palavras são usadas diariamente aqui, neste mundo do vinho, e eu vou contar um segredo: a maioria dos franceses de Paris ou de regiões fora da produção de vinhos não sabe o que essas palavras significam.
Apesar de o consumo de vinhos per capita na França ser muito maior do que o brasileiro e de a divulgação de informações sobre vinhos ser algo muito mais abrangente, os parisienses não sabem muito sobre vinhos, principalmente os da Borgonha.
Eles têm uma boa noção das regiões produtoras de vinho, da localização de cada uma e das uvas.
Mas, se você for perguntar nomes de produtores, de apelações, a diferença entre uvas, o que é um Clos na Borgonha ou o que são os Climats de Bourgogne, ou até mesmo o que é terroir, eles não saberão. Só quem realmente tem interesse em vinhos, como você, se interessa em correr atrás e aprender.
📚🍷Cursos de Vinhos – WSET
Na França, quem faz um curso de sommelier é para trabalhar na área. Não é como no Brasil e em muitos países do continente americano e asiático, em que as pessoas o fazem por hobby. E eu acho essa nossa dinâmica sensacional! A gente quer tanto aprender que procuramos um curso, uma escola formal, para nos dedicarmos por prazer, com zero retorno financeiro.
Um movimento parecido com esse ocorreu na França nos anos da epidemia de Covid-19. O curso de vinhos WSET, que é conhecido mundialmente e que possui 4 níveis de formação em vinhos, teve um grande acréscimo de alunos franceses que não são da área do vinho nos níveis 1 e 2, os mais básicos e iniciais, entre os anos de 2020 e 2022. Já os níveis 3 e 4, somente os profissionais da área se atreviam a continuar. Hoje em dia, os alunos dos níveis 1 e 2 estão, de alguma forma, ligados ao mundo do vinho profissionalmente, e há menos “aluno curiosos”. O “aluno curioso” neste curso aqui na França geralmente é um estrangeiro que vive na França e que quer aprender mais sobre vinhos para poder conversar e escolher vinhos quando sai. E quem faz os níveis 3 e 4 são, geralmente, profissionais do vinho, como sommeliers, produtores de vinho (sim, produtores), vendedores de vinhos, exportadores etc.
📖WSET – aprendi e me irritei 😤
Quando eu fiz o curso WSET 3 na Alemanha, nós éramos 11 alunos na sala, 8 já trabalhavam com vinhos e apenas 3 não trabalhavam. Desses três, um era um homem americano extremamente dedicado e educadíssimo. Ele era oficial de alta patente da marinha, com base lá na Alemanha. Ele estava se preparando para trabalhar com enoturismo quando se aposentasse e queria aprender formalmente sobre vinho. As outras duas pessoas estavam lá por desafio pessoal. Ambos americanos: uma senhora super risonha, cujo marido também era da base do exército americano, e um outro americano hiper geek de vinho. Ele acompanhava os bons podcasts de vinhos, vídeos no YouTube, assinava a revista Decanter, lia todas as histórias. Incrível! A dedicação e o respeito ao próximo que essas três pessoas passavam eram algo admirável.
Das 8 pessoas que já trabalhavam com vinhos, tinha 1 menina russa que era um crânio! Ela é enóloga, com mestrado e PhD, e trabalha num laboratório analisando amostras. A parte teórica para ela era super fácil, mas a degustação era o seu grande desafio. Lá eu conheci uma menina ucraniana que trabalha na melhor vinícola da Alemanha, a Keller. Ela saiu da Ucrânia naquele terror, nunca tinha provado vinho na vida e foi trabalhar nas vinhas e no escritório do Domaine Keller. Lá ela bebe somente vinhos do Domaine e de amigos do Domaine, e o seu paladar ficou viciado. No curso, ela teve muita dificuldade de entender os outros vinhos dos outros países, mas mesmo assim ela não desistiu. Na sala eu também conheci um menino alemão de uns 22 anos que eu queria pegar pelo pescoço! Ele sentava ao meu lado e pensa num rapaz folgado! Ele comia almoço e deixava as migalhas pela mesa, largava a mochila aberta no chão, espalhando todas as coisas: caneta, lenço de papel usado, folhas, meia… Ele sentava muito para trás e não afastava a cadeira para eu passar; eu pedia licença e nada, então eu o empurrava. Ele interrompia todo mundo e falava que os vinhos que a gente provava eram ruins demais e que vinho bom era o do Keller e do Romanée-Conti. Um insuportável. Ele já tem muita responsabilidade com pouca idade, pois trabalha como comercial numa loja de vinhos, mas, na minha opinião, ele ainda precisa de muita maturidade em tudo.
E é justamente isso que este curso chama atenção: maturidade. A gente percebe que quem é maduro na vida lida com o curso com mais leveza, seriedade e mente aberta. E o curso automaticamente nos dá ainda mais maturidade para lidar com as informações e com os nossos colegas. Ok, eu não tive maturidade com o novinho metido a besta… eu chutei a mochila dele “sem querer”. Mas tive maturidade o suficiente para não espirrar em cima dele. Já foi um começo.
Para quem quer aprender sobre vinhos, eu sempre apoio estudar numa escola de vinhos para dar uma base sólida. E sempre aconselho a ler muito, participar de degustações e, é claro, fazer viagens de vinho pelo mundo afora.
A experiência de fazer o curso WSET 3 foi ótima, eu recomendo para quem trabalha com vinho ou para quem quer um desafio pessoal.
🧀Dicas de Enoturismo – prato de queijos
Na França é muito comum, nas residências e nos restaurantes, servirem um prato de queijos depois da refeição principal. Muita gente interpreta essa ordem dizendo: “na França se come queijo como sobremesa”. Não é bem assim, pois sobremesa é sobremesa e prato de queijos é outro momento, assim como a entrada ou o prato principal. Nos restaurantes, eles deixam a opção livre:
· entrada + prato principal + prato de queijos ou
· entrada + prato principal + sobremesa ou
· entrada + prato principal + prato de queijos + sobremesa
Mas a pergunta é: por que o prato de queijos é servido depois do prato principal e não como nós costumamos fazer, servindo antes, como um aperitivo?
Até hoje eu não tive uma única resposta, e essas duas são as que mais fazem sentido:
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Queijo é proteína e tem bastante gordura, logo ele é servido depois para sanar aquela pequena fome que ficou ainda do almoço, para tampar aquele “buraco”, sabe? Faz sentido.
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Se fôssemos servir o queijo antes da entrada e do prato principal, iríamos começar a refeição de modo errado. O ideal são fibras antes, para termos uma boa digestão, por isso comemos a salada antes. E, se for servido o prato de queijos antes, vamos comer gordura e proteína, e o apetite vai todo embora.
Quer deixar um francês chateado é pedir o prato de queijos antes. O restaurante pode até ceder, dependendo do lugar, mas na casa das pessoas é impossível.
O meu conselho é: na França, faça como os franceses. Queijos depois da refeição. E aproveite a sobremesa também 😊
🍷Vinhos de Vosne-Romanée
Queijos combinam mais com vinho branco, mas, honestamente, quando o prato de queijos é servido eu ainda estou tomando o vinho tinto do prato principal e raramente eu troco. Aliás, se fosse para eu escolher um único tipo de vinho tinto da Borgonha para eu beber até o fim da minha vida, eu escolheria de olhos fechados os vinhos do vilarejo de Vosne-Romanée.
Em geral, os vinhos são extremamente complexos, elegantes, finos, com uma textura finamente aveludada e são bem persistentes. Seus aromas são bem frutados, de frutas vermelhas, podendo ter notas mentoladas e de rosas. São vinhos que seduzem tanto no nariz quanto na boca. São os vinhos de melhor reputação da Borgonha, sendo os mais elegantes e de melhor qualidade.
Para entender melhor, eu vou comparar com outro vinho bem famoso e que todos adoram: Nuits-Saint-Georges. Nuits-Saint-Georges é um vilarejo que costuma produzir vinhos muito mais potentes, com taninos mais marcantes, aromas de jabuticabas e com textura mais densa em boca.
A potência de um Vosne-Romanée anda lado a lado com a sua elegância: ele tem corpo, energia, álcool, taninos bem integrados e extremamente maleáveis, que nem percebemos.
Neste vilarejo são produzidos vinhos das 4 categorias de apelações: Regionais Bourgogne Pinot Noir, Village Vosne-Romanée, Premier Cru Vosne-Romanée e Grand Cru, como os famosos Climats de Romanée-Conti, La Tâche, Romanée-Saint-Vivant, entre outros.
Vale a pena pagar por um vinho de Vosne-Romanée? Sim, vale a pena.
O que eu indico:
compre vinhos Village, escrito somente Vosne-Romanée 💰💰💰 ou
Vosne-Romanée Premier Cru 💰💰💰💰. Os Grands Crus de Vosne são bem caros. Se você quiser comprar, ninguém vai te impedir.
😉 E uma compra esperta para a carteira é comprar um vinho regional Bourgogne, cujas uvas vieram de parcelas de Vosne-Romanée e são produzidas por produtores do vilarejo. Para isso, o sommelier da loja ou do restaurante pode te indicar.
🍷Da Cave da Juliana
á que estamos falando de Vosne-Romanée, eu provei, faz alguns meses, um vinho Village excelente: Vosne-Romanée – Le Pré de la Folie 2021, do Domaine Edouard Confuron.
O ano de 2021 produziu vinhos mais frescos na Borgonha e melhores para serem consumidos mais jovens. Este vinho, em especial, é extremamente fino, delicado e com boa estrutura. Um típico Pinot Noir da Côte de Nuits, com a elegância dos vinhos de Vosne-Romanée. O que mais me agradou neste vinho é a leveza dele e, ainda assim, mantendo a sua estrutura sólida e seu toque fresco. O Domaine Edouard Confuron é bem tradicional e tem uma assinatura bem específica e reconhecível: sua delicadeza e frescor. Em anos quentes como 2023, ele consegue manter o frescor, colhendo as uvas mais cedo, buscando ter uma acidez natural maior, uma vez que o Domaine se recusa a intervir no vinho de maneira que acrescente acidulantes. A intervenção é sempre mínima, justamente para manter o caráter do terroir do vinho.
Não vou mentir, este vinho é mais caro. Os vinhos de Vosne-Romanée são caros. Este Village, de uma única parcela, sai por aproximadamente 100 euros a garrafa. Vale a pena? Sim. É um vinho mais caro e que entrega. Quem gosta de vinhos mais generosos, mais no frescor da fruta e com mais amplitude, eu indico as safras de 2023, 2022, 2018. Quem gosta de algo mais clássico da Borgonha, mais linear e sério, eu indico as safras de 2024, 2021, 2017, 2016 e 2013.
📩Até a Próxima!
Pessoal, eu vou deixar vocês cuidarem da ressaca e atacarem o trabalho com vontade!
Esta próxima semana será bem intensa e chegarei cheia de inspiração para a semana que vem!
Um grande abraço a todos!