Eu não sei como foi o fim do carnaval de vocês, mas o meu final de semana e comecinho desta semana, foi agitado e eu fiquei meio perdida.
Aqui em casa nós temos uma rotina um pouco atípica, mas é uma rotina. Morar numa região de produção de vinhos e trabalhar diretamente com isso já muda tudo de ponta cabeça. E tanto a minha empresa quanto a do meu marido depende diretamente da gente, ou seja, trabalhamos de segunda a segunda e muitas vezes o nosso horário de lazer acaba virando trabalho.
Mas eu confesso, morar e trabalhar com vinhos da Borgonha é gostoso, intenso, desafiador e gostoso. Eu repeti “gostoso” duas vezes?! 😊
Ah e hoje não falaremos somente de Borgonha não. A Manuela, a dra. em enologia lá da Alemanha, veio nos explicar mais sobre a história dos vinhos da sua região.
Pegue a sua xícara de café e vamos a mais uma edição do ☕🍷 Café & Borgonha.
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Morar e trabalhar com vinhos da Borgonha
Muita gente acha que trabalhar com vinhos é algo luxuoso e fácil. Esta pessoa está redondamente enganada. Trabalhar com vinhos exige muita determinação, dinheiro, organização, sensibilidade, paciência consigo mesmo e empatia. E morar e trabalhar com vinhos morando na região de vinhos, como a Borgonha, é assim:
Todos os seus amigos trabalham com vinho diretamente ou indiretamente.
Semana e final de semana é apenas uma linha imaginária.
Você frequenta os restaurantes pela carta de vinhos. E não se atém as harmonizações perfeitas. O vinho fala mais alto que a comida.
Você julga o restaurante pela carta de vinhos.
Você acorda e vai andar, pegar um ar fresco nos vinhedos.
Trânsito é por causa do trator na estrada.
Você começa a escolher alimentos orgânicos, já que sabe como a agricultura pode ser ruim para a saúde.
Você não bebe todos os dias, porque o colesterol e sobretudo o alcoolismo é algo muito real, próximo e assustador.
Você faz mais atividades físicas porque seu fígado e corpo necessitam.
Na sua academia, 90% das pessoas trabalham com vinhos.
Você observa a videira e a compara com um ser humano.
Suas férias são em relação ao ciclo da videira.
Você degusta muito e estuda mais ainda.
Você trabalha nas vinhas para poder entender melhor.
Você trabalha de 10 a 12 horas nas vinhas de segunda a sexta.
Você trabalha debaixo do sol, chuva e frio.
Você pensa mil vezes antes de fazer uma pergunta ao produtor, com medo que a pergunta seja idiota demais.
Você fica feliz que o chinês fez a pergunta idiota e você não.
Você se dá conta que há uma sociedade do vinho: quem é filho de quem, qual filho de vinícola casou com qual filha de vinícola, quem se divorciou de quem, quem ficou com as terras…Uma chatice sem fim, um fofocaiada que não leva a lugar nenhum.
Para TODO mundo tem um momento que o ego sobe: “eu bebo os vinhos mais caros, eu tenho acesso, eu conheço fulano”. E para a maioria das pessoas a “ego trip” passa quando você se dá conta que você não sabe nada, que você aprende todo dia e que sempre terá algo ou alguma vinícola ou vinho que você não conhece ou não entende. Ai, neste momento você se sente mais aliviado, você relaxa e tudo começa a fluir melhor.
Você Conhece os Vinhos de Savigny-lès-Beaune?
Eu costumo frequentar bastante o vilarejo de Savigny-lès-Beaune, por dois motivos.
Primeiro: uma grande amiga mora lá e é casada com um produtor de Crémant de Bourgogne, o espumante local. E sempre a visito no seu lindo Domaine (vinícola) e não tem como não sair de la com uma garrafa.
Segundo: eu adoro os vinhos de Savigny, especialmente de um produtor chamado Domaine Pierre Guillemot. A família Guillemot existe há gerações na produção de vinhos, mas com essa estrutura de “CNPJ -Domaine Pierre Guillemot ” eles existem desde 1945, com o avô dos atuais produtores sendo o grande criador de tudo.
Eles possuem basicamente 10 hectares de vinhas no vilarejo de Savigny (sob o nome dessa apelação), também possuem terras numa parte um pouco mais alta, que leva outro nome de apelação “Hautes -Côtes de Beaune” e um pouco de terras classificadas em Grand Cru de Corton. Hoje quem toca o Domaine são os netos e um deles é o Vincent que recebe os clientes à moda borgonhesa antiga: muita conversa, muito vinho, muitas piadas e muitas, mas muitas garrafas!
O Vincent conquista todo mundo que vai lá, e desde 2015 o Domaine está em franca ascensão, sendo disputados por vários mercados. Eu garanti uma parte dos seus vinhos para a minha cliente na Escócia, uma brasileira que colocou em prática um projeto familiar e abriu um hotel fazenda de luxo com um wine bar dentro. Maravilhoso!
O Vincent não poderia estar mais feliz vendo seus vinhos que são minuciosamente bem feitos em mesas mundo afora.
Mas o que tona seus vinhos tão especiais? Primeiro é um trabalho intenso e orgânico em suas parcelas de vinhas. Ele trabalha das 7 até 17h nas vinhas todos os dias em cultivo orgânico. No ano passado ele tirou 3 dias de férias e na segunda-feira estava nas vinhas. Uma videira bem cuidada e sadia, da excelentes vinhos.
Segundo: ele possui muitas videiras velhas de média de idade de 65 anos. E muitas dessas videiras são provenientes de um excelente produtor, famoso por ter videiras de excelente qualidade, que vendeu alguns pés para a família dele há anos atrás.
Terceiro: a vinificação dele é igual para todos os vinhos brancos e igual para todos os vinhos tintos. Ele apenas adapta às condições da safra (se choveu muito, se foi quente, se fez muito frio, etc). Ou seja, ele é um verdadeiro produtor de vinhos de terroir. Degustando nele a gente entende com calma o que é vinho de terroir, a diferença de cada parcela. E a apelação de Savigny-lès-Beaune tem condições naturais para ser um vinho de guarda e a forma como este Domaine faz a sua vinificação contribui para isso. Ou seja, seus vinhos são um coringa, pois ontem mesmo eu provei todos os seus vinhos 2024 e estão prontos para beber, mas quando ele abriu um vinho branco de 2018 e depois um tinto de 1972 a gente entende bem a boa evolução dos seus vinhos. Ambos os vinhos estavam frescos, cheios de energia e podem aguentar facilmente muitos mais anos de guarda.
Teve outro dia que ele abriu às cegas um vinho de 1982, meu ano de nascimento. Eu fiquei emocionada com o carinho e generosidade dele. E hoje depois de ir tanto lá, de tirar tantas dúvidas, eu posso dizer que fiz um amigo. Espero poder envelhecer e ainda ser amiga dele para poder rir das suas piadas francesas que eu não entendo nada!!
Vinhos Alemães – por Manuella
📍 Uma região que precisa estar no mapa
Bom dia — e que bom que você resolveu aprender um pouco mais sobre os vinhos alemães hoje 🍷
Quando fiz meu curso sobre vinhos da Alemanha, havia um detalhe que parecia simples, mas era decisivo na prova: era preciso demonstrar que sabíamos situar a região no mapa. O examinador exigia que mencionássemos ao menos duas cidades conhecidas, capazes de ajudar até um leigo a entender de que parte do país estávamos falando 🗺️.
No meu último texto, percebi que deixei escapar uma informação essencial: o Rheingau uma região de produção de vinhos que fica muito próximo de Wiesbaden, capital do estado de Hessen — o mesmo estado onde está Frankfurt. Agora ficou mais fácil se localizar, não? Gosto de pensar que, se isso fosse a prova, eu teria garantido esse ponto.
♨️ Wiesbaden: elegância, águas termais e vinhedos
Wiesbaden, aliás, merece uma visita por si só. Elegante, marcada por sua tradição termal ♨️ e por uma arquitetura que revela a prosperidade do século XIX, a cidade funciona como porta de entrada para o Rheingau.
De um lado, vinhedos 🍇; do outro, o Reno; e logo em frente, já do outro lado do rio, está Mainz, cuja importância histórica antecede inclusive a Idade Média.
Wiesbaden possui 26 nascentes termais naturais, conhecidas desde a época romana. Atualmente, 14 ainda estão ativas no centro da cidade, com águas que chegam a 67 °C e um volume diário de cerca de dois milhões de litros.
⛰️ Neroberg: onde o Riesling encontra a memória
No alto do Neroberg — a colina-vinhedo mais conhecida da cidade de Wiesbaden — o Riesling amadurece sob o sol alemão com aquela precisão mineral que se tornou assinatura da região 🌞.
Ali também se encontra a igreja ortodoxa russa, oficialmente chamada
Russisch-Orthodoxe Kirche Wiesbaden, construída em 1845 em memória da jovem duquesa russa Elisabeth Mikhailovna, que morreu pouco depois de se casar com o duque Adolf de Nassau. A igreja foi financiada por seu marido como um verdadeiro mausoléu — uma igreja funerária erguida no alto do Neroberg, onde ela repousa até hoje.
Suas cúpulas douradas, visíveis de longe, principalmente quando refletem o sol ✨, introduzem uma nota inesperada na paisagem, rodeada de floresta e de um belo vinhedo. O vinhedo do Neroberg é um monopólio, ou seja, pertence a um único dono, sem outras vinícolas e é propriedade da própria cidade e é explorado principalmente pela vinícola estatal de Hessen, a Hessische Staatsweingüter Kloster Eberbach, ligada ao antigo mosteiro.
🏅 GROSSE LAGE® e VDP.GROSSES GEWÄCHS (GG)
O vinhedo Wiesbadener Neroberg é classificado pelo VDP como GROSSE LAGE®, equivalente alemão a um Grand Cru, reconhecendo terroirs historicamente excepcionais. Quando os vinhos secos seguem critérios rigorosos, recebem a designação VDP.GROSSES GEWÄCHS (GG) — ou seja, o rótulo indica vinhedo de alta qualidade.
O Neroberg tem solo de ardósia, loess e argila, exposição privilegiada ao sul e longa tradição na produção de Riesling, com registros de excelência desde o século XIX.
Napoleão, língua francesa e conexões com a Borgonha
Napoleão Bonaparte já esteve por aqui. E houve um período em que a língua administrativa da região era — adivinhem — o francês. Não deixa de ser curioso.
Talvez essa seja mais uma camada da conexão Borgonha–Rheingau. Não apenas o Pinot Noir de um lado e o Spätburgunder do outro, nem apenas o já mencionado Kloster Eberbach, mas também a circulação de ideias, de estruturas políticas e de tradições culturais.
⛪ A Ordem Cisterciense e o lema “Ora et labora”
Além do que já expliquei na outra newsletter — que a ordem cisterciense, à qual o mosteiro pertence, surgiu como reforma da tradição beneditina, fundada por Robert von Molesme — só estou citando-o porque sou apaixonada por essa parte da história, onde a trajetória de uma pessoa tem influência lendária por anos a seguir e até hoje.
Ele fundou essa nova ordem porque achava que era preciso viver de forma mais austera. A Ordem Cisterciense é tradicionalmente associada ao lema “Ora et labora” (“Reza e trabalha”), que reflete sua filosofia de equilibrar oração, contemplação e trabalho manual — incluindo cultivo da terra e viticultura, essenciais para sua expansão na Europa, como no Rheingau 🌿🍇. (Um belo lema para o tempo quaresmal — tão antigo e tão atual!)
Os monges não podiam falar sempre que queriam; havia uma prática rigorosa do silêncio 🤫. Um dos resultados dessa dedicação foi algo que hoje parece comum, mas antigamente não existia necessariamente: a separação das plantas por variedade. Antes, variedades distintas eram plantadas juntas, amadurecendo em épocas diferentes; com a observação cuidadosa, passou-se a separar as uvas por variedade.
🎶 Música entre vinhedos históricos
Se agora já exploramos alguns fatos históricos e a geografia da região está mais clara 🌍, podemos seguir para acontecimentos que continuam a dar vida ao Rheingau 🎶🍷.
Um dos eventos que mais aprecio é o Rheingau Musik Festival, que todos os verões transforma igrejas, mosteiros e até pequenas vinícolas em palcos para músicos internacionais e jovens talentos. Há algo de particularmente coerente em ouvir música clássica em meio a vinhedos históricos: ambos exigem tempo, técnica e dedicação 🎻.
🍇 O tradicional leilão de vinhos do Rheingau
O outro evento, porém, tem um caráter diferente — e talvez ainda mais simbólico. É o tradicional leilão de vinhos do Rheingau, realizado no Kloster Eberbach. E lá vai a coincidência: novamente o mosteiro com a Borgonha 🍇.
Durante o leilão, vinhos selecionados, muitas vezes de safras excepcionais, são disputados por compradores do mundo inteiro. Não se trata apenas de comércio, mas de reconhecimento público da qualidade e da reputação de uma região que construiu seu prestígio ao longo de séculos.
🍷 Uma região onde o vinho é uma narrativa
Percebe-se, então, que o Rheingau não é apenas um lugar onde se produz vinho. É um espaço onde história, religião, política, música e mercado se cruzam de maneira quase orgânica.
E talvez seja justamente essa densidade — essa sobreposição de camadas — que torne a região tão singular. Aqui, o vinho não é um detalhe da paisagem. Ele é parte da narrativa 🍷📖.
❓ Perguntinha final
Em quais regiões vinícolas alemãs a designação “Erstes Gewächs” (equivalente a um Grand Cru francês) é oficialmente permitida?
a) Em todas as regiões, mas apenas para Riesling
b) No Rheingau
c) Mosel
d) Baden
Resposta correta: b) No Rheingau ✅
📩Até a Próxima!
Pessoal, espero que vocês tenham gostado de conhecer um pouco mais sobre a tradição dos vinhos da Rheingau na Alemanha e um pouco dessa dinâmica de Borgonha, trabalho, vinhos, e a apelação Savigy-lès-Beaune. Deixamos vocês por aqui para vocês curtirem o resto dessa semana com fôlego, coragem e muita informação legal sobre vinhos europeus.
Participem, comentem, compartilhem essa newsletter com seus amigos e familiares.
Um abraço,
Juliana e Manuella – @vinhosalemaes