Bom dia!! Mais uma quarta-feira e mais um dia de ☕🍷 Café & Borgonha!
Hoje eu vou contar um pouco da explosão de vida nas vinhas nessas últimas semanas e de como agora é uma corrida contra o tempo.
Pegue o seu cafezinho, porque eu já peguei o meu, e vamos à leitura!
☕🍷 Acordaram mais cedo
As videiras usam o inverno como um tempo de repouso, de hibernação. É o momento em que os produtores fazem uma pré-poda, outros uma poda total, adubam a terra recolocando minerais como magnésio, potássio, entre outros. Com o fim do inverno e a temperatura mais elevada, a videira se desperta e começa a germinar o gomo. Desse gomo aberto saem folhas, galhos e pequenas bolinhas que serão a flor da uva.
Só que este ano, apesar do inverno ter sido bem rigoroso — muito mais do que nos últimos 10 anos —, ele foi curto e a videira despertou com 3 semanas de antecedência.
☕🍷 Risco
Em meados de março tivemos algumas noites de geada e alguns pés de Chardonnay, que sempre são mais precoces do que a Pinot Noir, já tinham o gomo aberto. Por isso, o risco de perda por causa da geada era grande.
Quem acompanhou o meu Instagram viu que eu publiquei, naquela semana, os materiais que os produtores colocam nas vinhas para tentar proteger a videira da geada. Tentar, porque nada é garantido.
Muita gente me pergunta por que não colocam lonas de proteção contra geada. Aqui na Borgonha, segundo o manual de regras da denominação local, é proibido colocá-las. O jeito é tentar se proteger de outras formas: velas, cabos térmicos, ventiladores, fogueiras, helicópteros, pulverizar água e deixar que ela congele — e rezar! Afinal, a fé move montanhas, e por que não geadas?!
O risco de geada ainda é grande em abril; aliás, é a época normal aqui na Borgonha. Por isso, os Climats (parcelas de vinhas) dos vinhos mais reputados continuam com os materiais à postos. E não é à toa: de dia a temperatura fica em torno de 15 graus e à noite entre 2 e 5 graus.
☕🍷 Crescendo a todo vapor
Com o sol, com a temperatura mais alta durante o dia e com a chuva, o mato cresce. E a videira também. E ela está crescendo a todo vapor!! A Chardonnay, por ser mais precoce do que a Pinot Noir, até já apresenta o seu gominho do cacho de uva. De uma semana para outra eles apareceram. E agora o que resta é: trabalhar!
☕🍷 A moleza acabou!
O produtor tem que contratar funcionários temporários, e eles ficam nas vinhas das 7 da manhã até umas 16h trabalhando — e muitas vezes nos finais de semana e feriados. Cá entre nós, o produtor trabalha nas vinhas só alguns meses por ano, de abril até outubro. Depois é bem tranquilo!
☕🍷 Você leu certo: cavalos
Alguns produtores orgânicos, ou que adotam práticas orgânicas nas suas parcelas, preferem utilizar o cavalo para arar a terra. Eles preferem porque o cavalo é mais leve que um trator e não amassa nem compacta a terra com o seu peso como a máquina faz. Se a terra fica compactada, entra menos oxigênio e, logo, o microambiente orgânico do solo tem menos vida. Também comentam que a emissão de gás carbônico do cavalo e do seu caminhãozinho até a vinha é bem menor do que a do trator.
Esses cavalos são de uma raça específica: são mais parrudos, mais fortes, e passam dois anos aprendendo comandos como direita, esquerda, para, ré, sobe e descansa.
Aliás, o animal é muito respeitado. Se ele cansou, ele para; se ele quer comer, ele come. E quando temos a sorte de vê-lo nas vinhas, devemos ficar longe e falar baixinho para não perturbá-lo.
☕🍷 Tratores
Este também é um período em que podemos ver muitos tratores exclusivos para pulverização de produtos antifúngicos, principalmente. Esses produtos podem ser orgânicos ou não, e a forma mais eficiente ainda é o trator. Na vinícola onde eu trabalho como temporária, eles testaram drones para pulverizar esses produtos. A vantagem foi o tempo — é bem mais rápido — e também o fato de não precisar estar fisicamente nas vinhas. A desvantagem, e ela é grande: as hélices do drone espalham o produto para todos os lados, então se gasta mais produto na tentativa de ser mais preciso.
Aliás, ser tratorista aqui na Borgonha é um super emprego! O salário é de aproximadamente 6 mil euros liquido, segundo o último anúncio que eu vi. Tudo porque esta mão de obra por aqui é escassa e muito necessária. Por isso muito dono de vinicola fez o curso de tratorista, para poder ele mesmo fazer esta parte. Assim ele não fica na mão e nem sem recursos.
☕🍷 Quando poderemos ver as uvas?
Lá pelo fim de junho a uva já estará no cacho, bem pequena e verde; em julho ela cresce, e em agosto ela ganha a cor da casca e começa a amadurecer. Ou seja, do momento em que ela brota, tudo acontece bem rápido.
☕🍷 E a colheita?
Geralmente ela ocorre em setembro. Salvo em anos muito quentes, quando a uva amadurece mais rápido, a colheita pode começar no fim de agosto. É isso, gente: as alterações climáticas estão mexendo muito com a agricultura. Olha o café e o chocolate, que aumentaram de preço devido às baixas safras.
☕🍷 Participar da colheita
Aqui a regra é bem clara e a fiscalização por parte do governo é intensa: somente pessoas contratadas, com contrato de trabalho assinado, podem participar da colheita.
Para ser contratado, é preciso ser cidadão europeu da Comunidade Europeia, ter documento de identidade de algum país da Comunidade Europeia (como é o meu caso) ou ter passaporte de algum país da Comunidade Europeia. Fora isso, somente se o produtor convidar e for por baixo dos panos.
☕🍷 As exceções
Eu sei de 2 lugares na Borgonha que, dentro da lei, conseguem vender a colheita como “experiência turística”. São eles: o Château de Pommard e o Domaine Bouchard Aîné et Fils.
Em ambos, a experiência é de 4 horas, com pausa para lanche (croissant, pão de chocolate, queijos e, é claro, vinhos), e termina com almoço em grupo.
Aos interessados, entrem em contato diretamente com os 2 estabelecimentos a partir de maio/junho.
☕🍷 E depois?
Depois da colheita, o produtor foca na vinificação e entra o período em que eles recebem bastantes visitas para provar os vinhos da safra anterior e fechar negócios. O outono e o inverno passam tranquilamente, no seu ritmo lento, e depois tudo começa novamente.
☕🍷 Da Cave da Juliana
Vinho: Bourgogne Côte D’Or
Os vinhos da Borgonha são divididos em 4 categorias de hierarquia, do menos concentrado e menos complexo até o mais. São elas: Regional, Village, Premier Cru e Grand Cru.
Nos vinhos Regionais, as denominações — ou seja, de onde as uvas saíram — abrangem vários nomes diferentes. O mais comum é ter escrito no rótulo da garrafa “Bourgogne”, o nome da região em francês.
Só que (ah, sempre tem um “só que”) muitos produtores que elaboram esta apelação usam uvas de áreas mais distantes, até mesmo do Beaujolais, e na etiqueta está escrito “Bourgogne”. Os produtores que trabalham com esta mesma denominação, mas com uvas das áreas da Côte D’Or — nas sub-regiões da Côte de Nuits e da Côte de Beaune —, se sentiam prejudicados, porque a qualidade dos vinhos era bem diferente. Por isso, para acalmar os ânimos, foi criada a denominação exclusiva para quando as uvas são dessa região: Bourgogne Côte D’Or.
Semana passada, nós fomos jantar num delicioso restaurante no vilarejo de Meursault. A noite prometia ser longa, até porque a mesa era animada. E começamos com um vinho branco Bourgogne Côte D’Or 2023 do produtor Fabien Coche.
Pensa num vinho correto, que entrega o que promete: não é complexo, é curto, ligeiramente mineral e levemente untuoso. Simples, sem defeitos, perfeito para entrada ou para o dia a dia. Os vinhos Bourgogne são assim mesmo. Quem experimenta um Bourgogne esperando um vinho extremamente profundo, longo, com muitas camadas e cheio de complexidade, está esperando errado. Existem pouquíssimas exceções, mas elas não são para serem mencionadas agora.
O vinho foi perfeito! Foi para aquecer os motores da noite, enquanto todos se sentavam à mesa, começavam a conversar e escolhiam os pratos. Um excelente quebra-gelo!
☕🍷 Dicas de enoturismo
Faz tempo que eu não dou uma dica de enoturismo para vocês!
Bom, já que a temporada na Borgonha começou, eu aconselho a reservarem hotéis, degustações, passeios (de preferência comigo), restaurantes — tudo com muita antecedência. Eu tive que recusar 10 grupos diferentes porque deixaram para marcar em cima da hora.
Uma dica para agendar comigo: vocês todos viajam para a Borgonha nos mesmos dias, nas semanas de feriados prolongados. Por isso, precisam agendar com muita antecedência — uns 3 meses. Caso alguém tire férias fora de feriado no Brasil, as chances de marcar um passeio comigo são maiores.
☕🍷 Até a próxima!
Espero que vocês tenham gostado de saber como estamos por aqui e eu desjo à todos uma excelente semana! Ah, e muito obrigada por sempre lerem essas nossas sessões de Café & Borgonha!
Juliana.