Bom dia, queridos amigos degustadores de ☕🍷 Café & Borgonha!!!
(eu agendei este post para ontem, quarta, mas acho que fiz errado. Então segue hoje, a nossa conversa em plena quinta)
Nessas últimas semanas pós-colheita, eu tenho tido grupos privados de turistas de domingo a domingo, e a parte mais interessante é ver suas reações e escutar seus comentários. Tanto sobre os vinhos quanto sobre a beleza da região, a calmaria dos vilarejos, o jeito simples e ao mesmo tempo sofisticado de cada detalhe.
E nessas semanas, alguns pontos me chamaram a atenção e vou compartilhar com vocês.
Peguem suas xícaras de café e boa leitura!
☕🍷 Complicando o vinho
Muitas pessoas que têm conhecimento sólido no mundo do vinho complicam a comunicação. E, sinceramente, eu acho que é de propósito. Assim, a pessoa cria uma barreira entre o consumidor e o vinho, tornando-o difícil, inacessível, cultuado, glamoroso e tornando a própria pessoa um sábio, um ser indispensável na degustação e compra. Quase como um guru acima dos outros pobres mortais.
Semana passada, a pessoa que apresentou o vinho em nossa degustação abusou — e muito. Era um vinho caro, não vou mentir, era um Grand Cru Montrachet de mais de mil euros, mas o fato de ser um Grand Cru caro não o torna impossível de ser degustado e apreciado. Porque, no final, o que conta é se o consumidor gostou ou não.
E o moço que apresentou o vinho (não foi a produtora, uma pena), querendo talvez valorizar o vinho e se valorizar, disse — e eu estou repetindo as palavras que ele falou: “degustar um Montrachet é muito difícil. Ele forma um VORTEX na língua, que faz com que sugue todo o ar da boca, deixando a pessoa sem oxigênio”.
Vou deixar um tempo para vocês lerem de novo essa frase. Farei meu comentário abaixo.
☕🍷 Quanta Bobagem
Quanta bobagem.
☕🍷 Praticamente uma tentativa de assassinato
Eu deveria ter falado isso na hora!
Ser asfixiada é coisa séria. Alguém impeça esse vinho!!
E como sempre eu penso numa boa resposta dias depois. Lamentável.
…
Vórtex na língua… Ele devia ter alguma afta incomodando em sua boca, isso sim.
☕🍷 Cansativo
Esse tipo de pessoa me cansa. É tudo o que eu detesto no mundo do vinho: pessoas que inventam e complicam a degustação.
Ter uma didática clara, usar analogias do dia a dia que façam sentido para explicar o vinho, é essencial para deixar o cliente à vontade. Afinal, é vinho, não é uma operação no cérebro. É álcool que veio da uva, tem cor bonita, aromas que agradam e que, de quebra, te traz amigos, risadas e bons momentos.
☕🍷 Desculpas
Os clientes, tadinhos, ficaram quietinhos e eu pedi desculpas pela apresentação do moço, que, aliás, insistia em me chamar de Joana. Sim, isso me deu mais raiva ainda. No final, eu mesma falei sobre o vinho.
☕🍷 Conselho
Se alguém for explicar algum vinho, o meu conselho é: explique de uma forma que a sua avó entenderia. Se ficar claro para a sua avó, você explicou bem.
Me deram este conselho em 2019 e eu sigo à risca até hoje. Não interessa o valor do vinho, quem é a pessoa à sua frente, onde você está: a comunicação precisa ser clara.
Ontem mesmo eu estava com dois jovens casais e uma das moças entendeu errado algo que eu expliquei. E, se ela entendeu errado, é porque eu não fui clara o suficiente. Expliquei de novo, troquei de exemplo, fiz ela ver, cheirar, provar, para entender. E repeti. Deu certo. Nem todo mundo entende da mesma forma e cabe a quem comunica se adaptar à pessoa. Se não, o que ocorre é um afastamento do “usuário” do produto.
Quantas vezes escutamos “este programa/aplicativo é friendly”, ou seja, é fácil de entender e de usar. A explicação do vinho também precisa ser friendly e, se usarmos algum dos nossos 5 sentidos, é melhor ainda.
☕🍷 5 sentidos
Eu adoro fazer enoturismo no meio das vinhas, porque, quando eu explico e mostro as videiras, as colinas, o solo, faço todo mundo sentir onde é mais frio, o vento, onde tem mais sombra e que tudo isso influencia o vinho, as pessoas entendem tudo. A carinha de vocês é ótima!
Sábado eu estava com um casal de dinamarqueses e o marido era um super degustador. Mas ele tinha algumas dúvidas bem precisas, e o melhor jeito de explicar era fazê-lo andar, sentir, ver as parcelas e suas particularidades. A expressão que ele fazia quando finalmente entendia o porquê de uma parcela ser diferente da outra e por que um produtor faz um estilo de vinificação e o outro, diferente, valeu o meu sábado de sol!
☕🍷 Sempre há uma razão
Cada passeio é uma interação rica para mim, pois vocês me obrigam a melhorar a linha da apresentação, a minha comunicação e a ser mais sensível. Seria extremamente fácil simplificar as explicações em uma frase: “porque é assim, sempre foi assim”, como eu já escutei de muita gente. Ou falar que um vinho Grand Cru é extremamente difícil e que forma um vórtex na língua, somente para deixá-lo mais valorizado. Patético.
Sempre há alguma justificativa por trás, seja ela climática, geográfica, financeira ou logística. Sempre. E raramente é algo mítico ou misterioso.
Bom, eu deixo vocês por aqui pensando nesse vórtex e nos vemos semana que vem. Trarei mais histórias de degustações, tipos de vinhos e curiosidades!
Muitíssimo obrigada pela leitura. É um prazer poder compartilhar com vocês esta pequena bolha de vinhos da Borgonha que eu vivo diariamente.
Abraços,
Ju!