Bonjour!!!! Como vocês passando este começo de ano? O “janeiro seco” terminou e vamos começar nivelando algumas informações bem sobre a Borgonha. Porque afinal, a gente pode até saber, mas a memória às vezes nos deixa na mão. E para quem não sabe ainda vai ser ótimo para aprender!
Peguem o seu café, um croissant e vamos lá!

Glossário de palavras do vinho da Borgonha
Eu sei por experiência própria que várias palavras do vinho da Borgonha nos deixam confusas e confusos. Por isso eu vou aos poucos apresentando uma pequena lista para vocês.
🍷 Climats
Na Borgonha, o termo Climat não tem nada a ver com o clima do tempo.
Aqui, Climat significa uma parcela de vinhedo delimitada, com características únicas de solo, subsolo, inclinação, altitude, capacidade de drenagem e de retenção de água, vento, bolsões de água, exposição solar e a tradição de valorizar esta terra passada de geração a geração. Cada Climat pode produzir um vinho com identidade própria, que é reconhecível provando-o, mesmo que um Climat (parcela) esteja ao lado de outro.
É por isso que o vinho da Borgonha não é apenas falar das uvas, mas sim a expressão precisa do lugar.
➡️ A UNESCO reconheceu os Climats da Côte d’Or como Patrimônio Mundial da Humanidade em 2015.
🧱 Clos
Clos em francês quer dizer algo cercado e na Borgonha falamos que um clos é o muro de pedra que cerca uma parcela, um Climat.
Na Idade Média, as pessoas cercavam certas parcelas com muros de pedra para proteger as vinhas de vacas e outros animais de as destruírem. Muita gente acha que era para conter a erosão, mas na verdade era para algo muito mais simples e do cotidiano: os animais. Esses muros ainda existem — e os nomes, como Clos de Vougeot ou Clos des Lambrays, carregam prestígio e história.

🏰 Château
Diferente de Bordeaux, na Borgonha um château (castelo) não significa necessariamente uma vinícola ou marca de vinho. Pode ser uma construção histórica no meio dos vinhedos, como o Château du Clos de Vougeot, que hoje é sede da Confrérie des Chevaliers du Tastevin — uma irmandade tradicional do vinho. Pode ser uma residência e também o nome de uma vinícola, que possui um château (casa grande e suntuosa).
🏥 Hospices de Beaune
O Hospices de Beaune é uma antiga Santa Casa medieval fundada em 1443, que virou ícone da Borgonha e que hoje é um museu e faz parte do Hospital moderno e da vinícola que produz vinhos com o nome desse hospital antigo.
Todos os anos, o Hospices de Beaune organiza o leilão de vinhos mais famoso do mundo, com rótulos produzidos a partir de doações de parcelas de vinhedos. A renda é revertida para o hospital público local.
O museu é aberto ao público diariamente e a visita vale muito a pena!
🍇 Pinot Noir & Chardonnay
Na Borgonha, a uva Pinot Noir reina entre os tintos e a uva Chardonnay entre os brancos.
Mas não pense que todos os vinhos são iguais: o mesmo Pinot Noir pode se expressar de forma leve e delicada na Côte de Beaune, ou mais estruturada e intensa na Côte de Nuits — tudo graças ao famoso terroir da Borgonha.
🗺️ Côte de Nuits & Côte de Beaune
A Côte d’Or (a espinha dorsal da Borgonha de produção de vinhos) se divide em duas partes:
- Côte de Nuits: ao norte, famosa por seus tintos potentes e elegantes. Aqui nascem lendas como Romanée-Conti, Chambertin, Clos de Vougeot, entre outras.
- Côte de Beaune: ao sul, berço dos melhores brancos do mundo (como Meursault e Puligny-Montrachet), mas também de tintos delicados como Pommard e Volnay.
🍾 Cuvée
No contexto borgonhês, uma cuvée pode significar:
- Um lote específico de vinho com características distintas, um sinônimo para o nome do vinho; por exemplo, “qual cuvée é este vinho que estamos provando? É a cuvée Savigny Les Serpentiers”
- Um rótulo ou engarrafamento especial de um produtor; por exemplo vinho Bourgogne, Cuvée Maria – nome da filha da produtora que nasceu naquele ano.
- Ou, no caso do Hospices de Beaune, um rótulo especial, cujo o nome da cuvée geralmente é da pessoa que doou a parcela ao hospices de Beaune.
Em resumo eu costumo explicar que cuvée seria um “nome fantasia” do vinho.
🍷 Grand Cru, Premier Cru, Village e Regional
Essas são os nomes das quatro classificações de hierarquia dos vinhos da Borgonha:
- Grand Cru – vinhos de parcelas, Climats altamente prestigiadas de alta qualidade (ex: Romanée-Conti, Le Montrachet)
- Premier Cru – parcelas de excelência dentro de uma vila específica (ex: Meursault 1er Cru “Charmes”) e representam 10% da produção da Borgonha
- Village – vinhos produzidos dentro de uma vila reconhecida (ex: Gevrey-Chambertin, Pommard)
- Regional – mais amplos, com o nome da região Borgonha escrito em francês, como o Bourgogne Pinot Noir ou Bourgogne Aligoté e representam aproximadamente 52% da produção da Borgonha
🍷Vinhos à Borgonhesa: o que isso quer dizer?
Uma expressão que eu tenho muito escutado é “vinhos à Borgonhesa”. E isso se deve a fama dos vinhos daqui que começaram a ter seu estilo inspirando outras regiões. Assim, surgiram expressões como: vinhos à Borgonhesa, estilo Borgonha ou vinificação à Borgonhesa. Mas afinal, o que isso significa?
O que caracteriza um vinho da Borgonha?
Na Borgonha, a tradição é clara: os tintos são produzidos a partir da uva Pinot Noir e os brancos a partir da Chardonnay. Mais do que isso, fala-se em vinhos de terroir, provenientes dos famosos Climats da Borgonha — parcelas delimitadas, cada uma com características únicas e reconhecíveis, como um DNA.
Essas características resultam da combinação entre o solo, o clima, a geografia, meio ambiente e o trabalho humano, que ao longo de séculos soube valorizar cada detalhe.
Na vinificação borgonhesa, alguns pontos são marcantes:
- Para os brancos, o envelhecimento sur lies, em que as borras finas dão corpo e cremosidade.
- Tanto nos brancos quanto nos tintos, o uso de barris de carvalho de 228 litros, com porcentagens variáveis de barris novos.
- O longo período de envelhecimento em barril, que pode variar de 10 meses a até 2 anos.
Como o estilo Borgonha inspira outros produtores
Esse conjunto de práticas — seja isoladamente ou em combinação — acabou inspirando produtores de diferentes regiões e até de outros países.
Um exemplo pessoal: em outubro de 2024, estive em Portugal e jantei no restaurante Tasca da Esquina. O gerente, ao saber que moro na Borgonha, nos ofereceu um vinho português que, segundo ele, era “como um Borgonha”.
Era um vinho branco feito a partir de duas uvas locais, envelhecido com as borras finas por 10 meses em barril de carvalho francês, com uma proporção considerável de barris novos. Até a garrafa era no formato típico da Borgonha.

Pesquisando depois no site do produtor, percebi que seus outros vinhos eram engarrafados em garrafas tradicionais (aquela mais quadradinha) e que seus brancos costumavam ter apenas 3 meses de barril, ou 6 meses em inox. Ou seja: ali estava o estilo borgonhês aplicado a um vinho português — talvez de forma um pouco exagerada, mas presente.
O vinho à Borgonhesa como marketing
Mas por que um produtor decide adotar a vinificação à Borgonhesa?
A resposta está no marketing.
Quando o gerente disse apenas “este vinho é como um Borgonha”, não precisou dar mais explicações. Essa frase, por si só, já eleva a percepção de qualidade do consumidor. No caso desse produtor, os seus vinhos custavam entre 9 e 15 euros, enquanto o tal “à Borgonhesa” era vendido por 35 euros — o mais caro da linha.
O estilo Borgonha é passageiro?
Hoje o estilo Borgonha é evidente e espalhado por duas razões. Quando o produtor é bom ele sabe dosar as técnicas para valorizar o seu vinho, se necessário, através de técnicas comuns da Borgonha. Outros perdem um pouco à mão querendo conquistar o paladar e a subconsciência coletivo e assim, acabam apagando a identidade local deste vinho.
Por enquanto o estilo Borgonha ganha cada vez mais popularidade, principalmente pelo lado marketing.
Vale a pena esse esforço “à Borgonhesa”?
Para o produtor parece que sim. O consumidor associa um vinho “como os da Borgonha” a algo acima da média e está disposto a pagar mais por essa experiência, sem ser os altos valores de um Borgonha autêntico. O estilo à Borgonhesa vende.
Mas, como foi dito acima, se o produtor erra a mão o vinho torna-se frustrante para muitos apreciadores. Como foi para mim, eu apreciei muito mais o vinho autêntico português de 9 euros do que o português estilo Borgonhês à 35 euros.
Dicas de Enoturismo na Borgonha –
Horários de almoço e jantar nos restaurantes da Borgonha
Essa dica vocês precisam prestar atenção porque eu vou salvar o almoço e jantar de vocês!
Se você está planejando sua viagem para a Borgonha, aqui vai um alerta importante: os horários das refeições por aqui são levados bem a sério. Nada de chegar às 15h achando que vai almoçar tranquilamente — a cozinha já estará fechada e o restaurante, provavelmente vazio.
⏰ Horários rígidos (e pontuais!)
- Almoço: das 12h até a última entrada às 13h30
- Jantar: das 19h até a última entrada às 21h30
Ou seja, se você chegar às 14h para almoçar, já era. Fica com fome. E durante a alta temporada (de maio a outubro), é sempre melhor reservar uma mesa com antecedência, especialmente nos restaurantes mais disputados. O srestaurantes aqui costumam ser pequenos, com poucas mesas.
📉 Fim de semana: menos opções abertas
Outro ponto que pega muitos turistas de surpresa: aos sábados e domingos, há menos restaurantes abertos, principalmente nos vilarejos. Muitos chefs aproveitam para descansar nos finais de semana. Eu sei, é diferente. Então, programe-se!
👕 Dress code: casual com bom senso
A Borgonha é descontraída, mas tem estilo. A vestimenta nos restaurantes costuma ser casual, mas evite chinelos, camisetas de time de futebol ou roupas muito esportivas. Para restaurantes estrelados ou mais sofisticados, o ideal é apostar no traje esporte fino — elegante, mas sem exageros.
🚫 Nada de delivery nos vilarejos
Se você está acostumado com iFood ou Uber Eats, prepare-se: nos vilarejos da Borgonha, esses serviços praticamente não existem. Só em cidades maiores como Dijon é possível encontrar opções de entrega. Por isso, vale se organizar para comer fora ou preparar algo em casa. E verifique se o seu hotel tem room service.
📝 Como pedir: tudo de uma vez!
Na hora de fazer o pedido, já escolha entrada, prato principal e sobremesa. Isso ajuda a cozinha a se organizar e evita atrasos. Na verdade, o próprio garçom jà vai anotar o seu pedido completo e às vezes eles deixam a gente escolher a sobremesa ao final. E não adianta negociar, eles fazem assim sempre e é para a organizar o serviço da cozinha para nada desandar.

E atenção: aqui existe um prato de queijos e ele vem sempre servido depois do prato principal, nunca antes! Isso porque ele é pensado para prolongar o prazer da refeição — e não para matar a fome logo de cara.
Afinal, estamos na França… então vamos fazer como os franceses!
✨ Dica final
Comer na Borgonha é mais do que se alimentar — é viver uma experiência. Então reserve o restaurante e tome tempo para saborear a experiência.
📚Da Estante da Juliana
Hoje eu vou indicar um livro de vinhos para você que gosta de leitura e quer saber mais. Aprender vinhos não é somente nas degustações, mas também em leituras de revistas sérias e livros.
Um dos livros que eu recomendo e tem a versão em inglês é o “Les Grands Crus de Bourgogne”, do Laurent Gotti – edição em inglês “The Grand Crus of Burgundy”.
Este livro é super bem escrito e detalha os Grands Crus da Borgonha. Há inúmeros mapas com informações dos Grands Crus e suas características. Aqui ele custa 59 euros e o ideal é colocar na mala de mão.
É um livro de facil leitura e não é técnico. Perfeito para aprender. Muitos produtores o usam como consulta e eu também.

📩Até a Próxima edição!!!
Pessoal ficamos por aqui e semana que vem vai ter mais assunto interessante! Continuem acompanhando e obrigada!!
Juliana.