VEM PRA BORGONHA

por Juliana Lins Cruz

VEM PRA BORGONHA
Por Juliana Lins Cruz

☕🍷 10.26 Nem todo vinho precisa de tempo

Bom dia, meus queridos leitores!!

No sábado, dia 28 de março, foi leiloada uma garrafa raríssima da Borgonha, um Grand Cru Romanée-Conti 1945. Eu até cheguei a comentar na última edição, lembram?

Este leilão está até agora causando furor nas conversas e muita gente está achando caro comprar um vinagre.

O que poucos entendem é que esta garrafa especificamente virou um artigo como um quadro de Leonardo Da Vinci e que, sim, este vinho consegue envelhecer por muitos anos.

Este Romanée-Conti é algo raro, de qualidade, que contém história, resistiu ao tempo e somente teve um único dono.

E vamos falar um pouco disso hoje: vinhos que resistem ao tempo.


☕🍷 Vamos por partes! Jancis Robinson explica

Nesta semana eu vi um simpático vídeo da Jancis Robinson, uma mulher britânica, crítica de vinhos altamente respeitada ao longo dos seus 50 anos de trabalho com vinhos e autora de inúmeros livros sobre o assunto. Neste rápido vídeo ela respondeu algumas perguntas básicas que todo mundo tem dúvida. Uma delas foi sobre “os vinhos melhoram quando envelhecem”.


☕🍷 Vinho bom é vinho velho!

Esta é uma afirmação que gera muitas dúvidas e a Jancis Robinson respondeu em apenas 40 segundos de uma forma muito prática. É um mito, pois apenas no máximo 10% dos vinhos mundiais conseguem ser envelhecidos. O restante dos 90% são vinhos de consumo imediato. Assistam esse curto vídeo clicando aqui. A legenda está em português.


☕🍷 Consumo imediato

Eu tenho um amigo brasileiro que mora em Paris, o Leonardo, que trabalhou durante anos numa grande rede de supermercados francesa. O cargo dele era escolher vinhos a serem vendidos na rede. Trabalho chato, hein?!

O que pouca gente imagina é que o trabalho dele era super difícil, pois ele tinha que escolher vinhos com qualidade dentro de uma faixa de preço acessível. Pois escolher vinhos de boa qualidade e caros é muito mais fácil.

Imagine: você tem dois vinhos com preço de venda a 4 euros. Nesses dois vinhos você tem que analisar a qualidade dentro do que um vinho de 4 euros apresenta, e assim escolher qual você vai comprar para a sua rede de supermercado. A sua degustação precisa ser bem apurada, seu gosto pessoal deve ficar de lado (como qualquer profissional do vinho) e você tem que ter em mente o comportamento do seu cliente.

Detalhe importante: o Leonardo comentou que vinhos vendidos no supermercado são consumidos em até 24 horas.


☕🍷 Jancis Robinson tem razão

Viu só?! A nossa querida Jancis Robinson tem razão.

E no supermercado a gente fica fiel à marca. Se você compra um vinho a 10 euros e você, consumidor, gosta, no seu próximo jantar ou no seu próximo churrasco vai comprar o mesmo vinho, pois conhece, gosta e confia. Pois escolher vinhos sozinho, principalmente num supermercado, é mega difícil. É você com seus óculos de leitura para ler as pequenas letras do rótulo e ninguém mais. Se o produtor for esperto, ele faz um contra-rótulo com informações da uva, onde foi plantada, como é o vinho e com o que ele harmoniza. Comunicação é tudo.


☕🍷 E os 10% que podem melhorar com o tempo?

Esses vinhos são a exceção e são com esses vinhos que eu trabalho. É este tipo de vinho, numa esfera muito menor, que faz parte esta garrafa de Romanée-Conti de 1945, leiloada por um valor de 650 mil dólares e valor final com taxas, impostos, transporte e seguro por U$ 812.500,00.

Um vinho para envelhecer é produzido em menor escala. Ao invés de 2 milhões de garrafas, a produção gira em torno de 5 até 100 mil garrafas por ano.

O cuidado com a viticultura é outro, a qualidade da uva sadia é mais importante do que o volume.

A vinificação tende a ser a mais natural possível, sem grandes interferências.

O tempo de envelhecimento em barris ou tonéis de outro material, como o inox, também é diferente, sendo mais longo, podendo ser de no mínimo 10 meses, chegando a 2 anos e meio, só para depois ser engarrafado após mais 4 a 6 meses.

Mas, principalmente, um vinho que consegue envelhecer precisa ter tido uvas com concentração. Ou seja, menos uvas por cachos (menos volume) e mais concentração. Além de bom nível de acidez, taninos e álcool, tudo em equilíbrio.


☕🍷 Somos iguais ao vinho

Para uma pessoa poder envelhecer bem e por mais tempo, ela precisa de boa saúde, boa estrutura física, comer bem, “ter sustância”, como diria a minha tia.

O vinho para envelhecer é igualzinho. Precisa “ter sustância”, ter concentração. A uva precisa ter saúde, o vinho precisa ter boa estrutura.

Você até pode guardar um vinho simples, feito em grande volume, por 20 anos. Nada te impede. E ao abri-lo, vai perceber que ele estará mortinho, sem fôlego. Porque ele não foi feito para isso; foi feito para ser consumido em até um ano da sua produção. E está tudo bem em consumir vinhos jovens que não foram feitos para envelhecer. Todo vinho tem seu momento e o seu público.


☕🍷 Vinhos da Borgonha: podem ou não envelhecer

A produção de vinhos da Borgonha equivale a apenas 0,5% do volume de produção de vinhos mundiais. Somos metade de um grão de areia.

Dentro dos vinhos franceses, a Borgonha ocupa apenas 4% de todo o território nacional de produção de vinho, o que ainda é muito pequeno.

A Borgonha ocupa o primeiro lugar em vinhos de alta qualidade do mundo todo.

Ou seja, baixo volume, alta qualidade.

E dentro dessa pequena produção borgonhesa, existem vinhos mais adaptados ao consumo imediato e muitos outros para envelhecer. Pois existem sim produtores de volume — afinal, ninguém vive somente de 10 mil garrafas por ano.


☕🍷 E no supermercado?

Vinhos de boas redes de supermercado são bons sim e muitos vinhos da Borgonha que encontramos nas prateleiras, como o Domaine Masse, Moillard, Du Four Bassot (excelente produtor e mal posicionado comercialmente), Bouchard Aîné et Fils, podem envelhecer no máximo 5 anos (categoria Régionale Bourgogne Pinot Noir e Bourgogne Chardonnay). Se for um vinho Village ou Premier Cru, ainda podemos guardá-lo por mais anos. Mas o público que compra no supermercado não quer guardar o vinho; ele vai consumir na hora.


☕🍷 Lojas especializadas

Para encontrar os grandes produtores e ter o prazer de guardar vinho e abri-lo naquela data especial, vá nas lojas especializadas em vinhos, as famosas cavistes.

Lá, a dona, o dono ou o sommelier vai te ajudar a escolher vinhos para consumo imediato (de 2 até 5 anos) de excelentes produtores — que você jura que o vinho não é novo de tão complexo que ele já é. E outros para guardar por muito mais tempo; a loja pode te apresentar vinhos mais velhos, com mais anos de guarda. São nessas lojas que encontramos a exceção dos 10% de que a Jancis Robinson falou.


☕🍷 Praticidade

Na minha humilde opinião, é algo até prático: quero algo mais barato para tomar hoje à noite, mais simples, despretensioso, para beber assistindo a um filme e comendo pipoca — vou ao supermercado e compro um bom vinho Régionale da Borgonha por 8 ou 10 euros.

Vou à casa de alguém? Compro num caviste um excelente vinho para dar de presente. E o meu orçamento muda: vai de 30 até uns 100 euros.


☕🍷 Preço do vinho

Achou caro um vinho no supermercado custar 10 euros?

O francês também acha. Por isso a compra de vinhos caiu muito. O Leonardo comentou que o ticket médio do consumidor despencou nos últimos 20 anos e que antes as pessoas compravam caixas de vinhos, e hoje é uma garrafa ou outra. Eu sei que o custo de produção aumentou bastante — até já comentei aqui com vocês — mas vou escrever de novo numa próxima edição.


☕🍷 Área VIP no supermercado

Agora tenho certeza de que essa informação vocês não sabiam: existem algumas lojas de redes de supermercados que possuem uma “área VIP” de vinhos, onde colocam à venda vinhos de renomados produtores e, eu juro, tem até vinho do Domaine de la Romanée-Conti sendo vendido. Na última vez que eu vi foi em janeiro de 2024 e a garrafa era um Romanée-Conti 2015 sendo vendida por 34 mil euros.


☕🍷 Onde você não imagina

Aqui na Borgonha há muito mercado de produtos orgânicos. E eu já notei que em muitos deles vendem vinhos de bons produtores de pequena produção, que justamente são clientes do mercado. É um achado!! Eu já comprei excelentes vinhos nesses mercados orgânicos, de produtores que adoro e que sei serem de extrema qualidade. São produtores cuja produção fica em torno de 80 mil garrafas por ano. Então, estando em Paris, na Borgonha ou em Lyon, vá num mercado de produtos orgânicos e dê uma espiada nos vinhos. Você vai se surpreender!


☕🍷 Até a próxima

Este mundo do vinho é bem vasto e cheio de informações, a gente fica meio perdida, eu sei. Ficar perdida no meio do vinho é até legal, porque a gente se acha tomando uma tacinha aqui e outra ali! E há estilos de vinhos diferentes para públicos diferentes e momentos diferentes. E isso é até reconfortante. Nada precisa ser escrito em pedra. O seu paladar e o seu bolso vão determinar o que você vai escolher. Nada mais justo 🙂

Obrigada por lerem e até semana que vem,

Juliana

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Olá, meus queridos leitores!
Meu nome é Juliana Lins Cruz e sou a fundadora da Vem Pra Borgonha, uma empresa de consultoria, marketing e enoturismo na região da Borgonha.

Como uma apaixonada por vinhos e com uma formação sólida em turismo, tenho a honra de participar ativamente da produção de vinhos na Borgonha e compartilhar minha paixão por esta região incrível com vocês.

Além disso, como parte do departamento de marketing da Anima Vinum, tenho ainda mais conhecimento e experiência para oferecer aos meus clientes.

Meu objetivo é apresentar a magia dos vinhos da Borgonha de maneira clara e acessível, para que vocês possam experimentar essa paixão conosco.

Eu espero ter a oportunidade de recebê-los na Borgonha e compartilhar essa experiência única com vocês.

Agradeço por estarem aqui comigo e espero ver vocês em breve!

Com carinho, Juliana Lins Cruz.

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