VEM PRA BORGONHA

por Juliana Lins Cruz

VEM PRA BORGONHA
Por Juliana Lins Cruz

☕🍷 23.26 Confissões de um ano bagunçado!

☕🍷 23.26 Confissões de um ano bagunçado!

Do calor à neve em dois dias

Bom dia, queridos amigos degustadores de ☕🍷
Café & Borgonha!!!

Vocês têm provado algum café bom recentemente? Aproveitem que vocês estão na terra do café!! Eu, por aqui, sofro para conseguir um café de qualidade 😫

Estamos chegando ao final do ano e, por aqui, na Borgonha, a chuva volta, a temperatura começa a cair e a neblina, infelizmente, aparece. Mas hoje é dia 7 de outubro e, até agora, nada. E isso é preocupante.

Então, hoje o papo é mais sério, pois falarei (de novo) sobre alterações climáticas e como isso impacta a vida cotidiana por aqui.

Então, sentem-se confortavelmente, peguem suas xícaras de café e boa leitura!

 


☕🍷 Usando a colheita como exemplo

Antigamente, até uns 15 anos atrás, antes de termos essas alterações climáticas, as colheitas eram feitas no meio de setembro e, às vezes, até no começo de outubro, porque as uvas tinham dificuldade de amadurecer e, logo, levava-se mais tempo. E detalhe, sua acidez era maior.

O verão na Borgonha era assim: manhãs frescas, tardes em torno de 25 graus e noites frescas para frias. Era uma temperatura amena, e as uvas que eram plantadas nas encostas voltadas para leste e sudeste eram as que tinham mais tempo de sol e logo, melhor amadurecimento. E são normalmente as parcelas classificadas em Premier Cru e Grand Cru.

E por isso a colheita era para meados e fim de setembro, às vezes driblando as chuvas do fim do verão, para ter mais tempo para a uva amadurecer. E há relatos de colheitas nos primeiros dias de outubro!!

Agora, com o mundo pegando fogo, os verões extremamente quentes e secos, não temos mais este problema de amadurecimento. Pelo contrário, temos que tomar cuidado para não colher uvas “cozinhadas” e com baixa acidez.

Por isso, as colheitas de uns 15 anos para cá estão sendo no começo de setembro e, mais recentemente, no fim de agosto ou, como neste ano, em meados de agosto.

Essa alteração climática impacta em tudo: na organização do pessoal, no calendário, no estilo do vinho, em máquinas diferentes para se adaptar a uma nova era, na logística diária da colheita e também no pós-colheita.

E por que eu estou abordando de novo este tema?

Porque o mês de setembro e o começo de outubro está sendo quente demais e, como aqui é para a gente bater papo, eu resolvi trazer esta preocupação que 100% das pessoas por aqui estão comentando.

Até hoje, dia 7 de outubro, as manhãs estão sendo frescas, as tardes em torno de 25 graus e as noites frescas para frias. Exatamente como eu descrevi acima como eram os verões da Borgonha há 15 anos atrás.


☕🍷 Além do óbvio

Essas alterações climáticas impactam a agricultura, a data da colheita, mas, indo um pouco além, elas impactam também a organização da vinícola.

Normalmente, os produtores de vinho começam o grande período de trabalho nas vinhas em abril, quando a temperatura da primavera desperta as videiras e elas começam a crescer.

Nessa hora, é uma corrida contra o tempo para poder fazer todo o trabalho de condução do crescimento dos galhos e folhas das vinhas e protegê-las contra fungos, algo muito comum nessa região.

É nesse período também que as vinícolas começam a procurar funcionários extras para a colheita.

Assim, quem vem de longe já programa a sua viagem, transporte, hospedagem, pede licença do trabalho ou aproveita as férias escolares, ou concilia com outros trabalhos.

Esse grande período de trabalho nas vinhas e de organização da próxima colheita vai até julho e, geralmente, os produtores e suas equipes tiram férias em agosto, antes de atacar a colheita em setembro, com tudo devidamente organizado: vinhas e equipe.

A colheita é a época de maior pressão dos produtores e ter um período de férias com sol e tranquilidade é essencial.

E, com o adiantamento da colheita para o fim de agosto, como nos anos 2025, 2023, 2022, 2020, 2019 e, este ano, excepcionalmente, para o começo e meio de agosto, a primeira dificuldade foi achar funcionário extra para a colheita.

As pessoas se programaram para o começo de setembro e, um mês antes, a data da colheita muda devido ao verão ultra quente, com mais ou menos incidência de chuva.

E muita gente que se programou não consegue se reorganizar e diz à vinícola: “Sinto muito, mas eu não posso comparecer duas semanas mais cedo do que o previsto.”

E isso aconteceu com quase todas as vinícolas neste ano.


☕🍷 Falta de mão de obra

Foi um grande problema este ano e só não foi maior porque o volume a ser colhido foi muito baixo.

Então, quem compareceu deu conta do recado.

Mas eu conheço muita gente que veio de outros países e que comprou passagens aéreas para poder fazer a colheita na data “prevista”, mas que, ao chegar aqui, descobriu que tudo já tinha terminado.

Eles foram avisados algumas semanas antes, mas, como todo ser humano adulto que trabalha ou estuda, muitas dessas pessoas não puderam mudar as datas.


☕🍷 Logística

O dia a dia da logística do trabalho também mudou.

Muitas vinícolas que não possuem uma câmara refrigerada para estocar as uvas quando elas são colhidas tiveram que começar a colher às 5 horas da manhã.

Ou seja: acordar às 4h e terminar por volta das 11 horas.

Tudo para evitar que as uvas cheguem à vinícola quentes.


☕🍷 Manter funcionário

E manter um funcionário extra, que muitas vezes tem zero conexão e apego à vinícola, por ser a primeira vez que ele está trabalhando lá, é difícil e, nessas condições, fica pior ainda.

Porque fazer colheita não é romântico. Não é como no Instagram, que todo mundo está com roupas limpas e bonitas, com chapéu de palha estiloso ou um lindo lenço.

 

É um trabalho debaixo do sol, cansativo, na terra, em colinas, às vezes em meio ao chão molhado, meio lama. Você transpira, se suja, fica abaixado com dor nas costas, carrega peso.

 

É mega exaustivo e, por isso, muita gente não retorna no dia seguinte.

Agora imagina começar às 5 horas da manhã e mais, com um grupo de pessoas desconhecidas e muito diferentes uma das outras.

Por isso, tratar bem e dar boas condições é essencial para segurar o pessoal e, falando francamente, o salário não é alto: é o salário mínimo francês por hora. Então, o produtor fornece boa comida.

 

Com comida boa, você segura todo mundo. Dizem que conquistamos “marido pela barriga”, não é?

Muitas vinícolas de pequenos produtores de qualidade contratam chefs de cozinha para cozinhar todas as refeições todos os dias, inclusive lanches e para beber, tem o básico, como água e suco, e o plus: cerveja e vinhos.

Isso é aqui na Borgonha, em vinícolas que se preocupam com o bem-estar dos funcionários. Aquela vinícola de 60 hectares só contrata gente terceirizada e manda uma empresa alimentícia fazer comida bem básica.


☕🍷 E depois da colheita?

É tudo bem sincronizado.

Tem a vinificação, o vinho é colocado nos barris para envelhecer.

Logo em seguida, em outubro, os pequenos produtores e suas equipes começam a adubar a terra, removem videiras antigas, cuidam do solo, recebem comandas para fazer as expedições de vinhos e os produtores recebem seus clientes para inúmeras degustações.

Só que este ano os vinhos já estavam nos barris antes da primeira quinzena de setembro e a equipe de vinificação ficou sem ter o que fazer antes do tempo.


☕🍷 Outubro quente

E, com este mês de setembro e outubro quente, o trabalho nas vinhas ficou meio estranho.

Em setembro tivemos um pouco de chuva e temperatura de 29 graus por vários dias consecutivos e agora este outubro quente, parecendo verão.

Isso está preocupando um pouco porque é um mau sinal.

A vinha, que deveria agora começar a descansar, ainda está em atividade por causa da temperatura.

O produtor só não fica muito estressado porque a colheita já foi feita, mas ele fica preocupado porque é mais um sinal de que o mundo está superaquecido e que talvez o inverno traga surpresas desagradáveis.


☕🍷 Previsão do inverno – li hoje de manhã

Estava no jornal francês de hoje cedo dizendo que é previsto um inverno rigoroso, com neve de 10 cm de espessura, e que a neve vai aparecer mais cedo este ano.

No ano passado, ela apareceu no dia de Natal.

E este ano será daqui a dois dias nos Alpes Franceses.

É prevista chuva para hoje e amanhã, dia 8, e uma queda brusca de temperatura, fazendo com que neve no fim de semana todo nos Alpes.

Sim, o mundo está estranho.

Não sei se deixo as roupas de verão no guarda-roupa ou se deixo as de frio.

 

Não sei se faço um bolo de morango ou se faço uma bela raclette de queijos em casa.


☕🍷 Mas e a safra 2026 de tempo ultra quente e ultra seco?

É o que muita gente tem me perguntado. E a resposta é meio nebulosa:

Será, com certeza, uma safra quente, com uma evolução do vinho bem rápida, uma safra bem frutada, com uma sensação de sucrosidade (sensação de açúcar) maior.

Não será uma safra fresca, elegante e tradicional Borgonha como 2021.

Mas o ponto nebuloso é que nunca tivemos um ano tão quente como esse, então ninguém sabe como o vinho final estará se comportando. Por isso, todo mundo está bem curioso para degustar daqui a um ano estes vinhos. E eu também.

O que eu espero é que nos próximos anos a gente tenha mais volume de vinho, porque este ano a média perdida foi de até 70%.

A falta de chuva causou um rombo imenso no volume da produção, principalmente de Premier Cru e Grand Cru.

Então vamos torcer para que as autoridades mudem as políticas de produção e consumo e que, aos poucos, o mundo consiga se recuperar.

Pois não é só o vinho que sofre.

Por exemplo, a produção de café e chocolate está diminuindo a cada ano.

E fora todos os outros problemas das alterações climáticas que estamos passando.

Por isso, vamos consumir saudavelmente e com consciência e tentar fazer pressão nesses governos para pensar no planeta e não no poder e nos cofres pessoais. Parar de lançar um foguete por semana já é um bom começo.

Nossa, ficou político esse meu texto! Não era a intenção quando eu o comecei, só estou cansada de pagar mais caro pelos produtos do cotidiano que estão ficando raros, sofrer calor intenso por meses, frio intenso, inundações, se virando e sabendo que quem decide não está nem ai.

Bom, melhor eu parar. Vou pegar uma taça de vinho para relaxar porque a cafeína me agitou. Até a próxima e obrigada por lerem esse pequeno diário,

Juliana!

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Olá, meus queridos leitores!
Meu nome é Juliana Lins Cruz e sou a fundadora da Vem Pra Borgonha, uma empresa de consultoria, marketing e enoturismo na região da Borgonha.

Como uma apaixonada por vinhos e com uma formação sólida em turismo, tenho a honra de participar ativamente da produção de vinhos na Borgonha e compartilhar minha paixão por esta região incrível com vocês.

Além disso, como parte do departamento de marketing da Anima Vinum, tenho ainda mais conhecimento e experiência para oferecer aos meus clientes.

Meu objetivo é apresentar a magia dos vinhos da Borgonha de maneira clara e acessível, para que vocês possam experimentar essa paixão conosco.

Eu espero ter a oportunidade de recebê-los na Borgonha e compartilhar essa experiência única com vocês.

Agradeço por estarem aqui comigo e espero ver vocês em breve!

Com carinho, Juliana Lins Cruz.

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