VEM PRA BORGONHA

por Juliana Lins Cruz

VEM PRA BORGONHA
Por Juliana Lins Cruz

☕🍷 14.26 Vinhos da Borgonha em Crise?

Bom dia, meus queridos degustadores de Café & Borgonha!

O fim da primavera europeia está quase aí, a temperatura aumentou neste último final de semana, há previsão de dias de chuva para a semana que vem e as vinhas não param de crescer com este combo de sol e chuva!

E a flor da vinha já desabrochou e está tão bonita!! Ontem eu fui visitar a parcela do Climat Grand Cru Mazis-Chambertin, que sempre floresce e amadurece mais tarde, e lá estava a pequena flor da uva com a pontinha branca aparecendo. Esta flor será fecundada e vai gerar o fruto, a uva. A flor que não é fecundada morre e cai no chão. Seleção natural.

Flores já fecundadas e uva em formação. As flores não fecundadas são essas brancas que irão cair. Foto 2025

Então, sempre dentro de um gomo há uma perda pela seleção natural. Por isso que neste momento, de março até maio, o risco de chuva de granizo, geada ou fungos são os piores inimigos do produtor. Pois ele já sabe que há uma perda devido a esta seleção natural e, se houver um fator externo como geada, granizo ou fungos que diminua ainda mais a produção, o produtor estressa.

Caso corra tudo bem nos próximos meses, como foi em 2023, o produtor terá belos e numerosos cachos de uvas. Dependendo do nível da denominação, o produtor remove parte desses cachos ainda verdes, porque, em excesso, eles sugam muita energia da videira. Assim, com poucos cachos por videira, a uva será mais concentrada. E quanto maior a concentração da uva, maior a concentração do vinho.

Mesmo em anos de baixa produção, o produtor costuma controlar a quantidade de cachos por videira para obter uma maior concentração, mesmo que isso influencie diretamente no rendimento final. Mas a premissa é: melhor ter pouco vinho, porém de qualidade e concentração, do que muito vinho magro e sem graça.

Bom, esta é a lógica. Acompanhou? Então vamos ao que interessa. Pegue a sua xícara de café e boa leitura!


☕🍷 Crise no consumo do vinho – diversas causas

Já faz pelo menos un 5 anos que se escuta que o consumo mundial de vinho está diminuindo, e muitas reportagens e especialistas acusam um único vilão. Mas, na verdade, é um conjunto de fatores que resolveu acontecer ao mesmo tempo. Vou listar alguns deles:


☕🍷 Saúde é o que interessa!

Há uma nova mentalidade rondando algumas gerações, que não consomem vinho em prol de uma vida mais saudável, mais fitness. São pessoas que fazem muita atividade física, tomam shakes de proteínas artificiais, fazem parte de grupos matinais de corrida, comem 100% orgânico, ou simplesmente não querem seguir os mesmos passos dos pais. Para este grupo, é zero álcool ou somente em ocasiões especiais, algumas vezes por ano.


☕🍷 Redes sociais x ser social

O vinho é um socializador quando estamos em grupo e hoje já temos muitas reportagens e pesquisas apontando que muitos jovens e adultos saem menos de casa para se socializar. Muitos preferem as redes sociais ou um netflix em um sábado à noite do que sair para um bar ou para dançar.


☕🍷 Custo de produção

Especificamente nos vinhos franceses, a produção de uma garrafa custa até 7 vezes mais do que a produção de uma garrafa de vinho em Portugal. As regras, taxas e imposições do governo francês estrangulam o produtor local, que precisa vender o seu vinho mais caro, complicando o seu posicionamento no mercado.


☕🍷 Francês mediano e seu baixo consumo

Eu já escrevi por aqui, em nossas conversas regadas de ☕🍷, que o consumidor médio francês não compra mais tanto vinho no supermercado como comprava há 15 anos. E isso se deve aos preços elevados dos vinhos franceses e ao baixo poder aquisitivo. A troca está sendo feita pela cerveja, que é mais barata.


☕🍷 Governo comprando vinho e arrancando videiras

Vocês já viram inúmeras reportagens sobre o governo francês comprando litros e litros de vinho não vendido de algumas localidades e também determinando que videiras fossem arrancadas para diminuir a produção, já que muitos produtores estão indo à falência. Em contrapartida, o governo incentiva esses mesmos produtores a plantar outros vegetais no lugar da videira.


☕🍷 E a crise na Borgonha? Ela se enquadra em qual desses problemas?

A crise na Borgonha é totalmente diferente dos casos apresentados acima. A produção de vinhos da Borgonha é voltada para qualidade, e não quantidade, e o seu público-alvo é outro. A alta qualidade faz com que o vinho seja vendido mais caro para um público que sabe o que consome, consome bem, come bem, viaja bem e concilia vida saudável ao prazer de boas experiências. Ele sabe que o vinho da Borgonha é caro e está disposto a pagar pela qualidade, pela história, pelo terroir, por séculos de videiras, uvas e produtores.

O vinho da Borgonha é um rei nas redes sociais e muitas pessoas tiveram o primeiro contato com ele através de blogueiros que falam sobre a região. Em outros países, foi o mangá o grande responsável pela disseminação da fama da Borgonha.

O custo de produção de um vinho da Borgonha é altíssimo, com máquinas e tratores ultramodernos, muito plantio orgânico — que é mais caro —, mão de obra cara, envelhecimento em barris, sendo que um único barril custa em torno de 900 euros. E isso faz parte do modelo de negócios.

Aqui, o governo francês não precisa mandar arrancar videiras para conter a produção e nem comprar excedentes de vinho, até porque não há excedente. Aqui há excedente de consumidores.

Logo, a crise aqui é outra.


☕🍷 Bolha dos vinhos da Borgonha

Durante anos, os vinhos da Borgonha viveram dentro de uma bolha, com seus preços inflando a cada safra devido à alta procura e à fama internacional. Os produtores aumentavam os preços todos os anos, sempre sob a desculpa de baixa produção devido à geada, ao forte calor, ao granizo etc.

Só que a produção sempre oscilou dessa forma, e aumentos de 40%, 50% a cada safra — ou até mesmo dentro da mesma safra — foram a gota d’água. A bolha estourou e o consumidor parou de comprar.


☕🍷 Primeiro a parar

Foi o próprio francês. O francês mediano, parou de comprar os vinhos da Borgonha e agora os deixa para ocasiões especiais. Ele passou a enxergar o vinho da Borgonha como um artigo de luxo e o trocou por vinhos de regiões francesas mais baratas.


☕🍷 Segundo a parar

Bares de vinho e restaurantes. Com esses grandes aumentos — e repito: muitas vezes dentro da mesma safra — os donos de restaurantes e bares pararam de comprar vinhos de valores mais altos. Ou seja, agora eles trabalham mais o estoque, deixando envelhecer as garrafas mais caras por mais tempo, e continuam comprando vinhos da Borgonha, porém denominações mais acessíveis ou produtores menos conhecidos. É uma substituição de Borgonha por Borgonha, mas com nuances.


☕🍷 Terceiro a parar

Importadores de vinho. Além da Rússia e dos Estados Unidos terem reduzido as importações devido aos conflitos mundiais e às taxas alucinantes, a China, que vinha sendo a maior compradora de vinho, simplesmente freou.

Nos últimos 10 anos, muitas importadoras chinesas surgiram no mercado e começaram a importar grandes quantidades de vinhos da Borgonha. Contudo, elas não souberam trabalhar as vendas o suficiente e acumularam estoque. Com aumentos de preços de até 50% de um ano para outro — e às vezes dentro da mesma safra — elas começaram a se perguntar: por que comprar o mesmo vinho, só que muito mais caro, se ainda há outras safras no estoque?

Resultado: queda nas importações e procura por vinhos franceses mais baratos.

As empresas mais consolidadas também diminuíram as quantidades compradas e trocaram alguns produtores mais caros por outros da mesma região com preços menores, já que o consumidor final não estava disposto a pagar tão caro por uma garrafa.


☕🍷 Bolha estourada, e agora?

O jeito foi parar de aumentar os preços e segurar as despesas. Quem continua aumentando não está vendendo.

Mas há produtores que estão vendendo muito bem mesmo com a bolha estourada, pois ganharam novos clientes que migraram dos produtores mais famosos e caros. O cliente continua comprando a mesma denominação, mas de um produtor menos conhecido e com preços mais amigáveis.

Outros produtores estão vendendo mais seus vinhos de pequenas denominações , como Regional Bourgogne e Village, para novos mercados que estão surgindo e querendo provar Borgonha.

E o produtor agora precisa se esforçar mais para vender, participar de mais salões de vinho, investir em publicidade, porque a crise econômica é mundial e artigos de luxo são dispensáveis.

Agora, quem não sente crise alguma é quem trabalha diretamente com o público final de milionários e bilionários, onde o luxo faz parte do cotidiano. Para eles, a crise é inexistente. Pagar 2 mil euros em uma garrafa que custava 800 euros há 10 anos é troco.


☕🍷 O que podemos fazer para continuar consumindo Borgonha?

Hoje, o ideal é focar no consumo de pequenas denominações. A entrega já é ótima!

Foque em comprar durante viagens. Antigamente, meus clientes compravam exclusivamente Premier Cru e Grand Cru, e hoje estão mais nos Villages. E está tudo bem, porque há excelentes vinhos Villages.

Deixe o Grand Cru e o Premier Cru para aquele grande restaurante, aquela grande noite. É algo especial para ser apreciado com calma e ao lado das pessoas que você ama.

E vamos aguardar o que o acordo com o Mercosul nos reserva. A pressão das associações de produtores de vinho é grande em cima dos importadores latino-americanos. A redução das taxas é algo real, que vai acontecer nos próximos anos, e isso precisa ser refletido no bolso do consumidor. Senão o acordo terá que ser revisto.

E por isso haverá pressão. E eu sei como francês é quando resolve lutar por algo que considera justo. E você, sabe?


☕🍷 Obrigada e até a próxima semana!

Muito obrigada pelo seu tempo de leitura. Espero que tenham gostado. Eu procuro misturar temas para sempre surpreender vocês!!

Desejo uma ótima semana e nos falamos na próxima quarta-feira.

E não esqueçam de falar de mim para os amigos e amigas e de adquirir o meu curso básico de vinhos da Borgonha na minha loja online!

Até quarta que vem,

Juliana.

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Olá, meus queridos leitores!
Meu nome é Juliana Lins Cruz e sou a fundadora da Vem Pra Borgonha, uma empresa de consultoria, marketing e enoturismo na região da Borgonha.

Como uma apaixonada por vinhos e com uma formação sólida em turismo, tenho a honra de participar ativamente da produção de vinhos na Borgonha e compartilhar minha paixão por esta região incrível com vocês.

Além disso, como parte do departamento de marketing da Anima Vinum, tenho ainda mais conhecimento e experiência para oferecer aos meus clientes.

Meu objetivo é apresentar a magia dos vinhos da Borgonha de maneira clara e acessível, para que vocês possam experimentar essa paixão conosco.

Eu espero ter a oportunidade de recebê-los na Borgonha e compartilhar essa experiência única com vocês.

Agradeço por estarem aqui comigo e espero ver vocês em breve!

Com carinho, Juliana Lins Cruz.

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