VEM PRA BORGONHA

por Juliana Lins Cruz

VEM PRA BORGONHA
Por Juliana Lins Cruz

☕🍷 21.26 Férias com colheita 2026 – parte 3

Olá, meus queridos amigos leitores e degustadores de ☕🍷 Café & Borgonha!

Ufa, a colheita acabou, pelo menos para mim. Todo ano eu fico ansiosa para começar a trabalhar na mesa de triagem e sempre, no primeiro dia, eu me arrependo. “O que eu estou fazendo aqui? Pra que ficar em pé o dia todo mexendo em uva e me sujando?”. E, como todos os anos, eu esqueço e sempre volto. E volto na mesma vinícola desde 2019, o Domaine des Croix.

Bom, a colheita no Domaine des Croix terminou oficialmente no domingo, dia 30 de agosto, com a festa de encerramento chamada La Paulée. E eu vou contar os bastidores deste Domaine tão querido que me faz voltar todos os anos.

Foto arquivo pessoal: um dos vinhos que tomamos na festa de encerramento. Nada mal, hein? Grand Cru Corton-Charlemagne 2020.

Xícaras servidas, poltronas confortáveis e vamos à leitura!


☕🍷 Como eu fui parar no Domaine des Croix

O ano era 2018 e era uma tarde fria de novembro quando o sommelier de um bar local me arrastou, junto com o seu aprendiz, para uma degustação numa Domaine. Naquela época eu participava de toda e qualquer oportunidade de degustação.

Chegamos lá e vi o nome: Domaine des Croix. Pensei: “somos parentes”, porque o meu sobrenome é Cruz e Croix em francês é cruz.

Na degustação eu fiquei muda e, timidamente, eu tirava as minhas dúvidas com o sommelier-amigo. Confesso que fiquei intimidada com o grupo de degustação: somente os melhores do ramo do vinho da Borgonha. E eu lá no meio.

O produtor David Croix nos recebeu com um belo sorriso, uma calma latente e com vontade de compartilhar seus vinhos e saber nossas impressões. Ele percebeu que eu estava de lado e gentilmente me incluía, fazendo perguntas para mim. Achei o máximo, porque muitas vezes, em situações como essa, em que a timidez ou falta de segurança tomam conta do corpo, a gente desaparece. E a simples atenção de uma pessoa impõe uma integração natural.

No final da degustação, a tradição borgonhesa manda abrir uma velha safra. E o David abriu um vinho de 1982, meu ano de nascimento. Fiquei feliz com a coincidência e uma amizade nasceu.

Foto arquivo pessoal: 2018 primeira degustação no Domaine des Croix. Vinhos branco de 1982.

Depois desse dia, o David virou um amigo e participo desde então da colheita em seu Domaine. Hoje eu sou a segunda funcionária mais antiga do grupo e posso falar: se ele deixar, eu volto todos os anos.


☕🍷 2026

Este ano eu cheguei feliz, mas sabendo que o clima talvez não seria dos melhores por causa da previsão de baixo volume. A estimativa é que ficamos entre 14 ou 15 hl/h.

Lembram da minha primeira edição do ☕🍷 Café & Borgonha, quando eu expliquei sobre o volume de produção em hectolitros? Se não lembram, cliquem aqui.

Este ano a previsão não era nada animadora, então, apesar de chegar feliz para mais um dia de trabalho, eu sabia que não teria lá tantas uvas para triar. E você sabe como é feita a triagem?


☕🍷 Triagem

Na mesa de triagem o lema é “se você não come, descarte”. Regra de ouro.

Folhas, pedaços de pau, pedras, insetos, uvas esturricadas, uvas com bolor/fungos, uvas não maduras (azedas), uvas cheirando a vinagre, tudo isso deve ser removido.

Este ano tivemos muitas uvas esturricadas, parecendo milho de pipoca queimado e muita uva seca, chegando a ser dura. Remover cachos que estão 100% assim é fácil, mas complica quando é somente um lado do cacho, porque a mesa é uma esteira que não para de movimentar. Então, este ano, fizemos uma triagem nas vinhas na hora de colher; uma segunda dentro da vinícola, onde geralmente eu ficava em frente à primeira esteira rolante, removendo os cachos secos, folhas, pedras, paus; e uma terceira triagem numa segunda esteira, onde as uvas caíam e uma equipe mais numerosa removia à mão cada uva ruim.

Teve um dia que usamos um ventilador que, depois que as uvas eram desengaçadas (removido aquele cabinho verde), soprava um vento forte e as uvas esturricadas eram separadas.

Arquivo pessoal: Juju na segunda mesa de triagem

O que era cansativo era ficar na mesma posição em pé e olhar fixamente as uvas passando na esteira. De vez em quando dava vertigem. Por isso fazíamos pausas. Clique abaixo para ver o video.


☕🍷 Ambiente no Domaine

O ambiente no Domaine des Croix é o melhor de todos! Podemos colocar nossa música no alto-falante da vinícola, temos um tonel de cerveja à vontade, café, uma chef particular que cozinha almoço, lanches e jantares para a gente, além da mãe e da tia do produtor, que ajudam a cozinhar tudo. Em cada almoço o produtor abre no mínimo 2 garrafas de vinhos, no geral são umas 4, e ele nos deixa trazer algumas garrafas para todos provarmos. Sempre temos um ou outro vinho às cegas, para que a gente melhore nossas habilidades.

Arquivo pessoal: um simples almoço durante a colheita.

E a equipe: sempre temos uma boa equipe de gente legal. Mas este ano ela foi superada!!!

Equipe que trabalha bem, motivada, forte e sempre de bom humor! A única pessoa mal-humorada foi removida da vinícola e colocada nas vinhas de castigo! Hahahahaha. Quando eu soube, eu ri muito. Esta pessoa é um senhor, que é inclusive a pessoa mais antiga que trabalha no Domaine depois de mim, e ele VIVE mal-humorado. É um saco! E este ano ele foi proibido de trabalhar conosco na vinícola, por causa da sua nuvem ranzinza, e foi colocado para colher uvas. Teve somente um dia, justamente no meu aniversário, que ele ficou 2 horas com a gente. No dia seguinte ele voltou a reclamar de tudo e foi rapidinho foi botado de escanteio nas vinhas!

Nas vinhas você pega uma fileira e não fala com ninguém, só tem interação nas pausas. Na vinícola a gente tem muito mais interação e muito trabalho em equipe. E lá todo mundo se trata bem, diz por favor, obrigada, pergunta se quer trocar de função para descansar as pernas, ombros, ou seja, a gente se apoia.

Arquivo pessoal: equipe boa e animada!

☕🍷 Comida

Eu falei que a gente tem uma chef privada que cozinha para a gente, certo?

Ela se chama Emmanuelle e ela é uma santa!!! Juntamente com a mãe e a tia do produtor, que fazem as saladas, sobremesas e todas as compras de supermercado, a gente tem verdadeiros banquetes!!

A cozinha do Domaine é superampla, prática e bem equipada. Um sonho!

Sempre tínhamos várias entradinhas, depois uns 3 tipos de saladas e mais um prato principal enorme. E vários bolos e tortas de sobremesa. De prato principal, pelo que eu me lembro, tivemos bife bourguignon, carne de porco assada e caramelizada (a melhor que eu já comi na vida), carne de panela, frango assado, ai, gente, não lembro muito. Só sei que em 7 dias de colheita eu engordei 3,5 kg.

Ah, e todos os dias de manhã tínhamos brioche e o famoso pão de queijo local chamado Gougères. E a receita da Emmanuelle é a melhor de todas!

E não ache que é exagero contratar uma chef e ter tanta variedade e fartura. Pois o que segura o pessoal da colheita é a comida. Quando você não dá boa comida, as pessoas abandonam o trabalho.

Imagina, você fica das 7 da manhã até umas 15 horas debaixo do sol ou da chuva, abaixada, colhendo uvas. Suas costas doem, suas roupas ficam imundas, você transpira sem parar, às vezes vem um mal-humorado reclamar com você… e, se a comida não for boa e se não tiver fartura, para quê voltar?

Dizem que a gente conquista um homem pela barriga. Eu digo que a gente mantém funcionários pela barriga.


☕🍷 Minha rotina

Durante a colheita eu mudo de rotina. Eu não recebo turistas, fico o dia todo na vinícola, mantenho o bom humor e dou suporte à equipe. Ao chegar em casa, eu sempre lavo a roupa na máquina, mesmo que seja só uma camiseta e calça. Porque não dá para deixar roupa suja de açúcar da uva fermentando no cesto. Geralmente eu faço um bolo ou biscoitos para levar para a turma no dia seguinte. E vocês não vão acreditar: eu saio todas as noites para jantar fora. Ou com clientes ou com amigos que vieram nessa época ou com pessoas da colheita. Por isso, os 3,5 kg a mais.

Aliás, ontem, terça-feira sem colheita saímos para jantar fora, hoje iremos de novo e quinta já temos outro jantar marcado. De sexta até domingo eu vou ficar reclusa em casa à base de chá!!

E sim, no dia seguinte eu sempre estou pronta para mais um dia. O segredo: beber muita água e andar.


☕🍷 Camisetas

Alguns Domaines têm como tradição oferecer a todos que trabalharam uma camiseta colorida com o ano da colheita. No Domaine des Croix eu tenho todas desde 2019, uma de cada cor e, normalmente, atrás, nas costas, há um desenho que resume a característica da safra. Deste ano o desenho foi um sol bem bravo e uma videira com seus cachos esturricados pelo sol.

O bom dessas camisetas é que eu uso uma delas por dia para trabalhar na vinícola. Às vezes coloco uma camisa por cima ou por baixo.

Arquivo pessoal: camiseta colheita 2026

☕🍷 Já nem lembro

da sujeira, das horas em pé, das aranhas e insetos que insistem em me escalar e nem do velhinho mal-humorado. Se tivesse colheita amanhã, eu iria de novo!

Mas meus queridos turistas me esperam e este segundo semestre está excelente: tenho brasileiros, indianos, filipinos, japoneses, americanos e ingleses vindo fazer tours comigo! Rompi fronteiras e agora o Vem Pra Borgonha é do mundo!

Obrigada pela leitura e até semana que vem!

Juliana.

Arquivo pessoal: feliz em compartilhar com vocês!

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Olá, meus queridos leitores!
Meu nome é Juliana Lins Cruz e sou a fundadora da Vem Pra Borgonha, uma empresa de consultoria, marketing e enoturismo na região da Borgonha.

Como uma apaixonada por vinhos e com uma formação sólida em turismo, tenho a honra de participar ativamente da produção de vinhos na Borgonha e compartilhar minha paixão por esta região incrível com vocês.

Além disso, como parte do departamento de marketing da Anima Vinum, tenho ainda mais conhecimento e experiência para oferecer aos meus clientes.

Meu objetivo é apresentar a magia dos vinhos da Borgonha de maneira clara e acessível, para que vocês possam experimentar essa paixão conosco.

Eu espero ter a oportunidade de recebê-los na Borgonha e compartilhar essa experiência única com vocês.

Agradeço por estarem aqui comigo e espero ver vocês em breve!

Com carinho, Juliana Lins Cruz.

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