VEM PRA BORGONHA

por Juliana Lins Cruz

VEM PRA BORGONHA
Por Juliana Lins Cruz

☕🍷 17.26 Enoturismo: o salvador em épocas xôxas

Bom dia, queridos amigos degustadores de ☕🍷 Café & Borgonha!!!

Quem já visitou a Borgonha sabe que o enoturismo daqui é tímido e que a região não gosta de turismo de massa. Até porque os valores dos vinhos não permitem esse tipo de turismo e nem mesmo a capacidade hoteleira da região.

Ah, para quem não sabe, eu sou formada em Turismo, fiz metade de Economia e fiz 3 pós-graduações e MBA em Marketing, ou seja, eu adoro analisar essa parte!

E hoje eu vou comentar as mudanças no enoturismo na Borgonha, mas antes eu vou voltar um pouco no tempo.

Peguem a sua xícara de um bom café e boa leitura!


☕🍷 Turismo e nome de Climats

Você sabe que os nomes compostos de vilarejos da Borgonha produtores de vinhos, como Gevrey-Chambertin, Morey-Saint-Denis, Vosne-Romanée, entre outros, não eram chamados assim até o começo do século XX?

Antes, eles se chamavam Gevrey, Morey, Vosne, e para poder aumentar a venda dos vinhos através do turismo local, foi acrescentado um segundo nome a cada vilarejo.

Esse segundo nome era o do Climat mais famoso.

Ou seja, no vilarejo de Gevrey, que possui 9 Climats Grands Crus, sendo o mais importante o Chambertin, foi rebatizado para Gevrey-Chambertin.

Assim como Vosne, com o Climat de Romanée-Conti, e o vilarejo foi rebatizado de Vosne-Romanée.

O Climat Musigny, que fica no vilarejo de Chambolle, passou a se chamar Chambolle-Musigny.

Essa pequena ação conjunta entre os prefeitos e produtores de vinhos deu super certo!

Tanto que fomentou o turismo local e, como consequência, a venda de vinhos.

Vale notar que, naquela época, as vendas de vinhos eram bem complicadas e que os Domaines familiares começaram a engarrafar os próprios vinhos e precisavam do turismo, da passagem de pessoas para provar e comprar os vinhos.


☕🍷 Época de Ouro

O tempo passou e, no começo do século XXI, a venda do vinho da Borgonha se fazia sozinha.

Mesmo quem era desconhecido conseguia vender seus vinhos sem se mexer ou fazer esforço.

Os clientes batiam à porta, os turistas vinham de todos os cantos do mundo e as portas aos visitantes se fechavam, porque para o produtor era muito mais negócio vender para restaurantes, lojas de vinhos ou importadores, pois era uma venda em quantidade e com frequência.


☕🍷 Crise pós-Covid 21

Tudo andava bem para os produtores, até que, após 2022, as vendas começaram a desacelerar.

O motivo? Aliás, são vários, mas aqui vão alguns mais comuns.

O principal comprador que causou um furor no mercado, a China, reduziu as suas compras. Muitas importadoras novas compravam em quantidade alta e, com a alta dos preços que os produtores reajustavam anualmente, o cliente final parou de comprar e o importador chinês ficou com estoque.

E quem trabalha com comércio sabe que estoque não é bom.

E os outros países — a própria França com os restaurantes, bares e lojas de vinhos — reduziram as compras por causa do valores absurdamente altos e começaram a trocar: um Grand Cru de um produtor famosos saindo da vinícola por 800 euros pela mesma denominação, só que de outro produtor menos famoso e mais barato.

O cliente final tem um limite na sua carteira.


☕🍷 Sem crise, sem limites na carteira

É claro que há uma certa clientela que os valores super altos não incomodam, mas esse cliente é a minoria.

Importadoras como a Fine Wine Experience, baseada em HK e focada em vinhos de alta gama, como Romanée-Conti, não sentem esse balanço do mercado. Mas eles são a exceção.


☕🍷 Enoturismo no horizonte

E, assim como no passado, o enoturismo reaparece para ajudar as vendas locais. Ele volta como um salvador.

Faz uns 4 anos, aproximadamente, que muitas vinícolas que não recebiam visitantes começaram a mudar a forma de pensar sobre o comércio.

Eles enxergaram que o turismo de boa qualidade aumentou muito nos últimos 10 anos e que os clientes estão acostumados a viajar, pagar por boas experiências de enoturismo e comprar vinhos ao final da visita.

O investimento em ter um lugar bacana para receber, em ter funcionários treinados, gentis, educados e bem-humorados, e entender que não é apenas uma degustação, mas uma experiência em enoturismo, está valendo a pena para quem apostou.


☕🍷 Pousadas e bares

Quem faz passeios comigo sabe que eu falo que agora está na moda entre os produtores abrir pousadas, onde a pessoa se hospeda e, ao final, pode comprar um ou mais vinhos da vinícola ou abrir bares de vinhos.

Nos bares de vinhos, o produtor coloca seus vinhos em degustação e os de seus amigos próximos, além de trazer uma grande variedade de vinhos locais num único local.

Alguns exemplos:

O Domaine Mugneret-Gibourg: uma das filhas abriu a pousada La Maison Jacqueline, localizada no meio das vinhas de Vosne-Romanée, com apenas 6 charmosos quartos.

E, ao final, você pode comprar 1 vinho da vinícola.

Sim, apenas um, porque este Domaine é mítico e um dos melhores que temos por aqui.

Outro exemplo é o Domaine Comte Liger-Belair, que abriu alguns anos atrás apartamentos de Airbnb e um lindo bar também no vilarejo de Vosne-Romanée chamado La Cuverie de Vosne-Romanée.

Assim como o Domaine Drouhin-Laroze, que abriu sua pousada em Gevrey-Chambertin.

Quando grandes e icônicos Domaines da Borgonha começam a explorar outros ramos do vinho, como pousadas e bares, é porque eles entenderam que há uma demanda e que ela é sedenta por experiências de qualidade.

Por exemplo, eu sempre escutei dos meus clientes que eles gostariam de provar em taça vinhos Grands Crus mais envelhecidos.

E o bar La Cuverie de Vosne-Romanée entendeu isso.

Na última vez que eu fui, tinha vinhos Grands Crus e Premiers Crus de grandes produtores e de Climats famosos dos anos de 2016, 2013, 2010…só que em taça. Raríssimo de achar isso por aqui.


☕🍷 Falando de números

Eu sei que vocês gostam de números e eu vou transcrever os dados que li em uma revista técnica que eu assino sobre a vinha e a vinificação.

O enoturismo hoje na França representa, segundo uma pesquisa de uma empresa de consultoria chamada Agrex, 38% do faturamento da vinícola.

O que é enorme!!

E, se o Domaine tem o serviço de hospedagem, como é comum em regiões como Champagne, Córsega e outras, esse número aumenta para 42%, contra 30% de uma prestação normal de degustação.

É um comportamento quase automático do cleinte: quando a pessoa está hospedada, ela tem a tendência de levar pelo menos 1 garrafa da vinícola como lembrança.

Os Domaines que possuem hospedagens recebem em média 1.680 visitantes por ano, o que representa 40% a mais que os Domaines clássicos que prestam apenas visita e degustação.

Em tempos de desaceleração de venda de vinhos, quem acordou para o enoturismo está indo bem.

E algo muito mais além dos números: o visitante se torna embaixador do Domaine.


☕🍷 Embaixador de Domaines

Vou dar um exemplo pessoal.

Em fevereiro de 2024, eu fiz uma visita ao Domaine de Champagne Jacques Selosse.

Quando cheguei lá, o produtor nos atendeu com mais um grupo de 15 pessoas. Eles eram todos hóspedes da sua pousada localizada dentro do Domaine.

Quem se hospeda ganha gratuitamente uma visita guiada pelo próprio Anselme Selosse, o homem que revolucionou o Champagne.

Muitas pessoas não gostam do estilo Selosse, mas é inegável que Anselme Selosse mudou o mundo do Champagne e por isso ele hoje é muito respeitado.

Além de inovar o estilo do Champagne, ele abriu essa pousada — linda de morrer — e ainda faz pessoalmente as visitas.

E esse é o pulo do gato: fazer a visita guiada com o próprio produtor, que te
olha nos seus olhos, te encanta, e te serve seus Champagnes ou vinhos, muda completamente a experiência.

Você chega em casa com garrafas compradas diretamente no Domaine e acaba contando da experiência para todos os seus amigos durante anos.

Esses amigos passam a conhecer o nome do produtor (Selosse), ficam curiosos e compram uma garrafa na primeira oportunidade.

Muitos viajam até a Champagne somente para se hospedar e ter a mesma experiência.

Então aquela pessoa lá atrás, que viajou e teve essa visita guiada, se tornou um embaixador do Domaine, contando para cada amigo, em cada reunião ou jantar a sua experiência no Domaine.

E essa é a força maior do produtor: o seu cliente final como seu embaixador por toda vida, por causa de uma visita de 2 horas ao Domaine.


☕🍷 Borgonha

Eu fico feliz pela Borgonha finalmente ter acordado para o enoturismo. Muitas vinicolas ainda estão se adaptando, outras já estão a todo gás como o Domaine Grivot e o Domaine Henri Gouges com suas super degustações em salas lindas e confortáveis. Outras ainda recebem timidamente daquele jeito Borgonhês: recém chegados das vinhas, com roupas sujas, dentro da cave de pedra, tratando o cliente com um pouco de distância nos primeiros minutos e virando melhores amigos até o final!

Arquivo pessoal

☕🍷 Eu recebo

Eu não sou produtora de vinhos, mas eu recebo vocês e os levo em lugares incríveis que querem compartilhar todo o charme e os segredos dos vinhos da Borgonha!

Quem sabe um dia eu não me arrisco e abro uma pequena pousada no estilo daquela série fofa The Good Witch e aí nossos passeios ficarão mais charmosos do que já são!!

Obrigada por lerem e até a próxima!! 🍷

Juliana

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Olá, meus queridos leitores!
Meu nome é Juliana Lins Cruz e sou a fundadora da Vem Pra Borgonha, uma empresa de consultoria, marketing e enoturismo na região da Borgonha.

Como uma apaixonada por vinhos e com uma formação sólida em turismo, tenho a honra de participar ativamente da produção de vinhos na Borgonha e compartilhar minha paixão por esta região incrível com vocês.

Além disso, como parte do departamento de marketing da Anima Vinum, tenho ainda mais conhecimento e experiência para oferecer aos meus clientes.

Meu objetivo é apresentar a magia dos vinhos da Borgonha de maneira clara e acessível, para que vocês possam experimentar essa paixão conosco.

Eu espero ter a oportunidade de recebê-los na Borgonha e compartilhar essa experiência única com vocês.

Agradeço por estarem aqui comigo e espero ver vocês em breve!

Com carinho, Juliana Lins Cruz.

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