Olá pessoal! Vocês já ficaram sem inspiração? Nesses últimos dias eu estou assim, sem inspiração para tudo, não somente para escrever. Cozinhar então, está uma lástima!!! Até o básico saiu ruim. E para provar vinhos? Estou sem sentidos, sem conseguir pensar, então eu resolvi dar uma pausa. Há anos atrás eu escutei aquela famosa história que Beethoven estava travado numa parte da sua partitura e ele saiu para dar uma volta no jardim e a inspiração veio. Eu não sou Beethoven, mas sou humana como ele. Parei tudo, me arrumei e fui andar no parque e nas vinhas aqui de Beaune. E não é que a inspiração voltou? Acho que foi o ar gelado no rosto, fazer circular o sangue, o sol no rosto. Só sei que me inspirei e voltei para contar tudo para vocês. Pegue o seu café e boa leitura. ☕🍷 Café & Borgonha.
A volta no parque
O parque de la Bouzaize é um parque pequeno, bonito e bem cuidado da cidade de Beaune. Ele fica a uns 700 metros do museu Hospices de Beaune e é só percorrer o leito do rio canalizado que chegamos ao parque. No parque, além de um lago onde podemos andar de canoa, há diversos tipos de patos, aves, há um aquário, um viveiro e um pequeno curral/estábulo/poleiro onde encontramos galos, cabras, ovelhas e lhamas. Parte do parque faz limite com uma parcela de vinhas classificada em Village. Eu acho isso surreal.
O que poucos sabem é que nos fundos do parque há um pequeno portão que dá acesso às vinhas Village e Premiers Crus de Beaune. E foi para lá que eu fui.
A colina de Beaune – o novo refúgio
Eu resolvi subir uma pequena rua em direção à colina de Beaune, lugar onde encontramos muitas parcelas de vinhas e muitas casas modernas com piscinas, onde algumas famílias têm se mudado. Lugar alto, isolado, com uma bela vista e muitos vinhedos ao redor.
A parte que pouca gente pensa: é muito perto das vinhas. Ou seja, os produtos aplicados para proteger as vinhas de pragas ou de fungos são pulverizados e acabam naturalmente entrando nessas casas e nas piscinas.
Por isso que a França, desde 2020, possui uma lei que, resumindo, diz que toda uma área de agricultura – viticultura, árvores frutíferas, florestas, pequenos arbustos – que faz uso de produtos fitossanitários e fito farmacêuticos (eles possuem uma lista enorme, como inseticidas, herbicidas e produtos que causam câncer), que está a uma distância de 10 metros de pessoas (residências, escolas, hospitais), deve adaptar a sua agricultura para orgânica. Tudo para evitar que esses produtos cancerígenos fiquem concentrados e próximos demais às pessoas.
Ou seja, toda uma parte da colina de Beaune precisou mudar o tipo de cultivo para orgânico. E não somente de lá, mas de qualquer lugar da França em que a parcela de vinhas esteja a menos de 10 metros de residências. E olha que tem muitos lugares assim. O governo dá um tempo de adaptação para o produtor, porque afinal não se muda tudo do dia para a noite, até porque o investimento é muito mais caro na agricultura orgânica.
Governo bonzinho
Falando assim a gente até imagina como o governo francês é uma mãe. Mas na verdade é tudo custo. Se eles não fazem nada, mais gente fica doente com câncer ou outras enfermidades e até problemas de infertilidade. Ou seja, um maior custo para a saúde pública com tratamentos e pagando salários integrais quando a pessoa está de “atestado”.
O governo passa a conta para o agricultor, que tem que mudar os produtos que pulveriza. Os produtos orgânicos são mais caros e devem ser usados em maior quantidade, e o trator usado para passar o produto convencional não pode ser o mesmo para o produto orgânico, afinal, mesmo lavando o reservatório, fica com resíduos. Ou seja, o maquinário tem que ser trocado. E as pessoas precisam aprender a administrar os novos produtos. E a planta e o solo têm que se adaptar.
E o governo cobra imposto sobre a agricultura orgânica. Claro.
Trabalhando nas vinhas
Eu passei uma temporada na primavera trabalhando nas vinhas para aprender mais. Era um trabalho braçal e duro, que começava às 7 da manhã e terminava entre 16h ou 17h, às vezes 18h. Se chovia a gente parava. E se tinha um trator pulverizando produtos, mesmo os orgânicos como sulfito e cobre, a gente tinha que parar e se abrigar.
Video de trator pulverizador. Arquivo pessoal.
Eu me lembro que, mesmo abrigada dentro do carro, os meus olhos ardiam muito. Ao chegar em casa eu sempre colocava as minhas roupas dentro de um balde com água e vinagre, em tentativas frustradas de remover o cheiro forte de sulfito que ficava impregnado nelas.
A parte “boa”, se é que eu posso dizer isso, é que o meu nariz reconhece de longe cheiro de sulfito, nas vinhas, nas pessoas ou nos vinhos.
Sulfito na comida
O sulfito é um composto químico que encontramos naturalmente em algumas reações químicas, como a transformação da uva em álcool, e que também é sintetizado em laboratório para diversos usos, sendo um dos mais comuns o de conservante. Tanto que ele é colocado em diferentes doses em quase todos os produtos alimentícios processados ou transformados, como o sorvete (parece que é o que mais tem sulfito), refrigerantes, todos os tipos de grãos secos (nozes, amêndoas, café), pão de forma, comida congelada, leite de caixa, suco de caixa, frutas cortadas e vendidas em copo no supermercado, vinho, entre outros.
Sulfito e cobre nas vinhas
O sulfito também é altamente usado na agricultura orgânica como um inibidor na proliferação de um fungo muito comum por aqui, o oídio. E também são pulverizados outros compostos à base de cobre para conter outro fungo comum por essas bandas, o míldio.
É uma mistura que dá certo, mas é preciso passar inúmeras vezes o trator, pois quando a chuva cai, ela “lava” todo o produto. Enquanto os produtos convencionais, que fazem grande mal à saúde, ficam na planta, penetram bem e, logo, a passagem com o trator e seu gasto são menores.
Quem trabalha nas vinhas e depois vai jantar, eu sinto o cheiro de sulfito quando a pessoa se senta à mesa. A coitada nem sente mais o cheiro. Mas eu sinto.
Além do cheiro forte do sulfito, o cobre não é biodegradável, então ele fica no solo, cai no lençol freático, cai no rio, e você já entendeu tudo.
Por isso que dizem que o cultivo orgânico é uma faca de dois gumes: por um lado ele não usa produtos que possam causar câncer, por outro utiliza o cobre.
Testes
Eu li esta semana numa revista científica de viticultura e vinificação que em várias regiões da França estão sendo testados produtos biodegradáveis e não cancerígenos para substituir a dose de cobre e até mesmo eliminá-lo. Até agora os testes foram favoráveis, mas ainda precisam de mais anos de pesquisas. Vamos torcer!!
Drones: modernidade na Borgonha
Quem já veio para a Borgonha sabe que aqui é tudo meio parado no tempo e tudo muito manual na produção de vinhos, masssss, nós temos bastante tecnologia de ponta. Uma delas, em fase de testes, é a pulverização de produtos como o sulfito e outros através de drones, substituindo os tratores.
O dono da vinícola em que eu trabalho todos os anos testou os drones no ano passado e ele até saiu numa reportagem nesta revista que eu leio.
Vantagens:
Tempo – muito mais rápido pulverizar com o drone do que com o trator, podendo até acioná-lo à distância.
Solo: não amassa a terra como o trator, que pesa e, a cada passagem, amontoa a terra, deixando mais difícil o oxigênio entrar e dificultando os micro-organismos benéficos de se desenvolverem.
Presença humana: não precisa de um ser humano próximo, ou seja, ninguém fica com o olho ardendo, cheirando mal, recebendo na pele e nos cabelos produtos químicos.
Desvantagens:
Preço: ainda é super caro e inacessível para a grande maioria esmagadora dos produtores de vinhos. Lembrando que os produtores da Borgonha, Champagne e Bordeaux têm mais dinheiro, mas nas outras regiões é mais complicado.
Foco: passando com o trator tem o vento e ele acaba levando produto onde não deve, ou seja, existe desperdício. Com o drone o desperdício é maior porque, além do vento, tem as hélices do próprio drone que espalham mais ainda o produto. E isso é custo a mais.
Enfim, estão sendo estudadas alternativas. E nós aqui temos um projeto de morar numa casa com jardim, só que a colina de Beaune nós já descartamos.
Semana que vem: Les Grands Jours de Bourgogne
Eu quase que esqueci de falar! Na semana que vem teremos 6 dias de eventos aqui na Borgonha para a divulgação dos vinhos da região. Este evento, chamado Les Grands Jours de Bourgogne, acontece a cada 2 anos e o intuito é divulgar os vinhos, regiões produtoras e produtores para que novos negócios sejam feitos.
É um evento super importante do nosso calendário e eu vou participar de uma forma diferente durante esta edição. Aguardem, porque não na semana que vem, mas na outra eu contarei tudo.
Vai ser intenso e muito gostoso!
🍾Da Cave da Juliana
Sábado passado nós bebemos no restaurante L’Expression, em Beaune, um vinho simplesmente DIVINO. Toda vez que eu provo algo deste produtor, é sempre perfeito.
Foi o vinho da apelação pouco conhecida chamada Fixin e é de uma única parcela. Fixin – En Combe Roy 2023, do produtor Berthaut-Gerbet.
Era tudo o que queríamos: algo clássico, bem feito, redondo, sedoso, intenso, boa estrutura, sem defeitos e pronto para beber. Para acompanhar, comemos uma costela de boi assada com legumes e regada com muito azeite e manteiga. Foi perfeito.
Este vinho não vende aí no Brasil, mas não hesite em comprá-lo em suas viagens.
📩Até a próxima, pessoal!
Semana que vem vai ser bem agitada, então eu vou enviar o ☕🍷 Café & Borgonha na próxima quarta, mas talvez eu não consiga ler os comentários tão rápido. Mas me mandem mesmo assim. Boa semana a todos!
Ju.